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Jurema Sagrada - Pesquisado por Ednay Melo




"Jurema...
É um pau encantado,
É um pau de ciência,
Que todos querem beber..
E se você quer Jurema,
Eu dou Jurema a você...
E se você quer ciência,
Eu dou ciência a você..."

A maior característica da Jurema Sagrada é o culto aos Mestres Juremeiros. É uma religião nordestina que se iniciou com o uso desta planta pelos indígenas da região Norte e Nordeste do Brasil, mas que atualmente possui influências as mais variadas, como pajelança, xamanismo indígena, religiões africanas, catolicismo, etc.

A jurema é uma espécie de planta do gênero da acácia, as acácias sempre foram consideradas plantas sagradas por diferentes povos e culturas de todo o mundo e os índios do nordeste brasileiro tinham na "Acácia jurema" (Jurema, Jerema, Calumbi) a sua árvore sagrada, a sua Acácia, ao redor da qual desenvolveu-se essa tradição hoje conhecida como "Jurema sagrada".

O culto da Jurema iniciou-se mais especificamente no Estado da Paraíba, em Pernambuco existe um município cujo nome é Jurema devido a grande quantidade destas árvores que ali se encontra. Todas as partes dessa árvore são aproveitadas: a raiz, a casca, as folhas e as sementes, utilizadas em banhos de limpeza, infusões, ungüentos, bebidas e para outros fins ritualísticos. Os devotos iniciados nos rituais do culto são chamados de “Juremeiros”. Foi na cidade de Alhandra, município a poucos quilômetros de João Pessoa, que esse culto, na forma do Catimbó alcançou fama. A Jurema já era cultuada na antiguidade por pelo menos dois grandes grupos indígenas, o dos tupis e o dos cariris também chamados de tapuias. Os tupis se dividiam em tabajaras e potiguares, que eram inimigos entre si. Na época da fundação da Paraíba, os tabajaras formavam um grupo de aproximadamente cinco mil índios. Eles ocupavam o litoral e fundaram as aldeias Alhandra e a de Taquara.

Então, a Jurema Sagrada é remanescente da tradição religiosa dos índios que habitavam o litoral da Paraiba, Rio Grande do Norte e no Sertão de Penambuco e dos seus pajés, grandes conhecedores dos mistérios do além, plantas e dos animais. Depois da chegada dos africanos ao Brasil, quando estes fugiam dos engenhos onde estavam escravizados, encontravam abrigo nas aldeias indígenas, e através desse contato, os africanos trocavam o que tinham de conhecimento religioso em comum com os índios. Por isso até hoje, os grandes mestres juremeiros conhecidos, são sempre mestiços com sangue índio e negro. Os africanos contribuíram com o seu conhecimento sobre o culto dos mortos egun e das divindades da natureza os orixás voduns e inkices. Os índios, estes contribuíram com o conhecimento de invocações dos espíritos de antigos pajés e dos trabalhos realizados com os encantados das matas e dos rios. Daí a jurema se compor de duas grandes linhas de trabalho: a linha dos mestres de jurema e a linha dos encantados. 




Mestres Juremeiros

É preciso o êxtase para o mestre chegar, para ele vir trabalhar. E isso se faz não só através do canto, em que eu chamo meu mestre, eu canto para ele, mas também através da bebida. Eu preciso beber a Jurema”, explica Luiz Assunção, doutor em Antropologia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Luiz Assunção estuda a Jurema há 16 anos. Jurema é uma árvore nativa do agreste e da Caatinga Nordestina. Diz a lenda que essa árvore é sagrada, porque nela a Virgem Maria teria escondido o menino Jesus durante a fuga da sagrada família para o Egito.

A bebida é feita com a casca da Jurema e mais vinho ou pinga. Os outros ingredientes são um segredo que os mais velhos guardam com zelo. “Ela queima um pouquinho. Pouquinho, mas queima. Dentro dessa garrafa tem jurema. O senhor vai me desculpar, porque eu não posso revelar o segredo”, diz Mestre Geraldo. Para explicar, ele canta: "O trabalho da Jurema, todo mundo quer saber. Como o segredo da abelha, trabalha sem, ninguém ver".

“É uma ciência, uma ciência grande, muito grande”, garante Mestre Carol. Juremeiro há mais de 50 anos, ele apresenta seu mestre: Preto José Pilintra. E descreve o que sente quando essa entidade mágica se aproxima. “Eu sinto, eu vejo quando ele chega”, explica. “É a cidade da Jurema, que traz toda a força para os discípulos mestres, que vêm ao redor. A água é um elemento importante, porque é ela quem traz a força da natureza”, esclarece o mestre.

Segundo observação do escritor e professor de São Paulo Reginaldo Prandi, especialista em religiões afro-brasileiras: “Quando os mestres se incorporam, eles têm sempre um objetivo básico, que é atender as pessoas e aplicar certas receitas, que são receitas mágicas, de uma medicina muito antiga, religiosa”, comenta o especialista.

Mestre Melque trabalha com a chamada jurema de chão. O chocalho, ou maracá, e o canto em círculo lembram a origem indígena deste rito. Mas evocam também a época em que os praticantes desta religião eram perseguidos pela polícia. “O mundo religioso afro-brasileiro sempre foi perseguido, sempre foi visto como uma prática religiosa inferior, como uma prática relacionada ao mal, à feitiçaria”, lembra Luiz Assunção. Para se esconder da polícia, o rito era realizado com todos abaixados, escondidos na mata. Não se podia tocar tambores; apenas os maracás.

“Muitos têm a Jurema como um bicho, mas a jurema não é nada disso. Ela é paz, luz, amor e caridade”, resume Mestre Geraldo.

“Esse mundo religioso precisa ser respeitado”, defende Luiz Assunção.



No ano de 1938, Curt Nimendaju obtém, entre os índios de Santa
Rosa - BA, descendentes de Tupiniquins e Kamuru-Kariri um interessante
depoimento; uma "viagem" ao mundo espiritual conseguida por aqueles que
bebem da sagrada bebida feita com partes da Mimosa Nigra Hub.

"A Jurema mostra o mundo inteiro a quem bebe: Vê-se o céu aberto, cujo fundo
é inteiramente vermelho; vê-se a morada luminosa de Deus; vê-se o campo de
flores onde habitam as almas dos índios mortos, separada das almas dos
outros. Ao fundo vê-se uma serra azul; vêem-se as aves do campo de flores:
beija-flores, sofrês e sabiás. À sua entrada estão os rochedos que se
entrechocam esmagando as almas dos maus quando estas querem passar entre
eles. Vê-se como o sol passa por debaixo da terra. Vê-se também a ave do
trovão, que é desta altura (um metro). Seus olhos são como as da arara, suas
penas são vermelhas e no alto da sua cabeça ela traz um enorme penacho.
Abrindo e fechando este penacho, ela produz o raio e, quando corre para lá e
para cá, o trovão." (Numendaju, 1986: 53)

Contudo, este culto se difundiu nos Sertões e Agrestes nordestino em
direção às grandes cidades do litoral, onde elementos das outras matrizes
étnicas entraram em cena. Desse modo, o símbolo da árvore que liga o mundo
terreno ao além e, embora amargo, dá sapiência aos que dela se
alimentam, ganha novos significados, surgindo um mito com traços cristãos.
Neste sentido, a Jurema surge como a árvore que escondeu a sagrada família,
dos soldados de Herodes, durante a fuga para o Egito, ganhando desde então
suas propriedades mágico-religiosas (Cf. Cascudo, 1931 ; Bastide, 1945).

A jurema é um pau sagrado

Onde Jesus descansou

Que dá força e "ciência"

Ao bom mestre curador.


Na década de 20 os jornais já anunciavam a presença "dos baixos e
barulhentos espíritos" do primitivo "Catimbau" , entre os ditos civilizados
das pacatas cidades. A partir desta época encontramos referências sobre a
Jurema em autores como Cascudo (1931), Fernandes (1940), Bastide (1945) e
Vandezande (1975) .

A Jurema que passaremos a apresentar, é a encontrada na cidade do Recife, em
terreiros localizados em sua grande maioria nos bairros periféricos da
cidade. Dimensionado os limites espaço-temporais do presente trabalho, um
primeiro ponto a ser considerado é que o culto à Jurema não se dá de forma
padronizada entre os diversos grupos existentes. Como dizem os juremeiros:
"Jurema? Cada uma tem a sua, a minha eu cultuo como aprendi com fulano...
(sic.)" "A Jurema de sicrano ..., ele dá bode ao mestre dele, na minha eu
não cultuo com sangue...(sic.)". Contudo, em meio às diferenças, existe um
complexo de ritos e crenças que os juremeiros compartilham e que permite
distinguir o culto à Jurema de outras formas concorrentes de religiosidade
popular, em especial do Xangô e da Umbanda como praticadas no Recife. O que
chamaremos aqui, complexo mágico-religioso da Jurema, envolve como padrão a
ingestão da bebida feita com partes da Jurema, o uso ritual do tabaco, o
transe de possessão por seres encantados, além da crença em um mundo
espiritual onde as entidades residem.

Passaremos então a buscar, dentre os rituais observados em várias casas
religiosas do Recife, os elementos que possibilitem melhor caracterizar o
complexo mágico-religioso do Culto à Jurema. Enfocaremos, então, o mundo
espiritual e o panteão de encantados, os artefatos religiosos, os rituais,
enfim, a visão de mundo existente entre os juremeiros.

O Mundo Espiritual e Sua Representação no Mundo dos Vivos


"Abrindo a Mesa, com Luz e Amor

Abrindo as Portas do Juremá

Chamando os Guias

Para trabalhar."

Quem já assistiu uma reunião de Jurema, deve lembrar dessa toada, cantada no
início das sessões, para convidar os "Senhores Mestres do outro-mundo" a
participarem do mundo dos vivos. Para os juremeiros paraibanos e
pernambucanos este mundo espiritual tem o nome de Juremá e é composto por
reinados, cidades e aldeias. Nestes Reinos e Cidades residem os encantados:
os Mestres e os Caboclos. Nos diz Cascudo (1931: 43):

"Cada aldeia tem três 'mestres'. Doze aldeias fazem um Reino com 36
'mestres'. No reino há cidades, serras, florestas, rios. Quanto são os
Reinos? Sete, segundo uns. Vajucá, Tigre, Candindé, Urubá, Juremal, Fundo
do Mar, e Josafá. Ou cinco, ensinam outros. Vajucá, Juremal, Tanema, Urubá e
Josafá".


A Jurema é a cidade-estado deste mundo espiritual. Em Alhandra, localidade
do litoral paraibano, considerada por muitos o berço de uma grande linhagem
de catimbozeiros e mestres do além, como Manoel Inácio e Maria do Acais, que
como nos conta Vandezande (1975) lá formaram escola quando em vida; as
árvores de Jurema cultivadas pelos catimbozeiros são consideradas as
próprias cidades espirituais.

"A 'cidade' mais antiga de jurema, cujo pé de jurema teria sido plantado
pelo 'mestre Inácio', regente dos índios, é o arbusto velho e enorme que se
encontra na atual propriedade 'Estiva'... O arbusto é sempre venerado, e
muitas vezes há velas acesas ao anoitecer. ... O lugar é chamado pelos
entendidos de 'cidade do Major do Dias'. ... Mestre Inácio e o mestre Major
do Dias foram proprietários de Estiva. O atual proprietário, o mestre Adão,
um dia tornar-se-á também 'mestre' do além depois que o seu espírito for
lavado." (Vandezande, 1975: 129)

Entre os recifences, talvez pela falta de espaço nos locais de culto,
troncos da planta são assentados  em recipientes de barro e simbolizam as
cidades dos principais mestres das casas. Estes troncos, juntamente com as
princesas e príncipes, com imagens de santos católicos e de espíritos
afro-ameríndios, maracas e cachimbos, constituirão as Mesas de Jurema.
Chama-se Mesa o altar junto ao qual são consultados os espíritos e onde são
oferecidas as obrigações que a eles se deva.

As princesas são vasilhas redondas de vidro ou de louça dentro das quais são
preparadas a bebida sagrada e, em ocasiões especiais, onde são oferecidos
alimentos ou bebidas aos encantados. Os príncipes são taças ou copos, que
normalmente estão cheios com água e eventualmente com alguma bebida do
agrado da entidade. É comum vê-se nas mesas mais elaboradas uma complexa
arrumação onde entra na composição príncipes, princesas e trocos.

O príncipe ou a princesa é a menor unidade de simbolização de uma entidade
espiritual. Todo Juremeiro deve ter, ao menos um destes dedicado ao seu
mestre e assentado em sua mesa. Contudo, de acordo com a disponibilidade
financeira, pode-se constituir todo um "estado espiritual" - as cidades
dominadas por uma determinada entidade. Confecciona-se um estado através do
uso de uma princesa tendo ao seu centro um príncipe e em seu derredor mais
seis deles. Para complementar este artefato, entraria o tronco da árvore
sagrada, que pode ficar no centro da mesa ou em baixo dela.

Para alguns entendidos no culto, é no troco - junto com outros apetrechos
que a entidade que o domina solicita que seja nele depositado -, onde
estaria o verdadeiro segredo de uma "Jurema plantada". Portanto, eles
argumentam que este deveria ficar longe dos olhos dos curiosos, normalmente
em baixo da mesa. Como adverte uma das toadas: "A Ciência da Jurema / Todos
querem saber / Mas é feito casa de abelha / Trabalha que ninguém vê." Em
cima do tronco, sobre a mesa, ficaria, a vista de todos, o jogo de príncipes
e princesas.

Os Habitantes do Juremá

Duas categorias de entidades espirituais tem seus assentamentos nas mesas
de Jurema, os Caboclos e os Mestres.


Os Caboclos e Índios

I

"Fui pra mata, fui caçar

Atirei no que não vi

Acertei passo sagrado,

Era um Pitiguarí.

II

Mas, Tupã me perdoou

Hoje eu não caço mais

Me chamo Flecha Dourada,

Protetor dos animais."

(Jurema de mesa)

Os Caboclos são identificados como entidades indígenas que trabalham
principalmente com a cura através do conhecimento das ervas (Pinto, 1995).
Durante a estada destas entidades nos terreiros, incorporadas nos médiuns,
dão passes e realizam benzeduras com ervas e folhagens. São associados às
correntes espirituais mais elevadas, as que trabalham para o bem, mas que
também podem ser perigosas quando usados contra alguém. Por isso são muito
temidos. Diz um informante de Pinto (op. cit.: 53-54):

"... na antiguidade se tinha muito medo dos caboclos por causa das flechadas.
A flechada de um índio é pior que o trabalho de um mestre... só algumas
pessoas que sabem mexer e botar a mão ali dentro"

Nas Mesas o caboclo é simbolizado por príncipes, estátuas de índios e
apetrechos confeccionados por ameríndios ou inspirados neles como cocas,
flechas, preiacas, colares, etc.

Os caboclos comem frutas, flores, mel, carne bovina ou peixe, que pode ser
crua, cozida no vinho, ou assada na brasa. Com a introdução de sacrifício de
animais nas práticas juremistas, é comum oferecer-lhes pequenos animais como
passarinhos, preás, coelhos e outro "bichos de caça". São oferecidos ainda
raízes como a mandioca, a batata doce e alimentos confeccionados a partir
delas. Alguns juremeiros oferecem vinho branco a estas entidades, outros
apenas suco de frutas e refrigerantes como o guaraná. Normalmente os
caboclos não fumam e no momento das reuniões e giras a eles destinadas não
se deve fumar; contudo alguns caboclos se utilizam destes elementos. No caso
dos caboclos que utilizem do tabaco em seus trabalhos, nas oferendas estes
devem se fazer presentes na forma em que o caboclo em questão mais se
agradar (cachimbo ou cigarro de palha ou charuto). Completam as oferendas as
bugias ou inãs, as velas.

Na incorporação vê-se três estereótipos relacionados ao gênero e a faixa
etária destas entidades: Os caboclos crianças, sejam de um sexo ou de outro,
descem pedindo mel, balas e frutas. São pouco ascéticos quando comem estes
alimentos, depositando e misturando os ingredientes no próprio chão dos
terreiros. É costume, ainda, lambuzarem a si e aos com que compartilham de
seu alimento. Muitas vezes querem comer pequenos insetos e répteis que
encontrem nas casas de culto, sob a argumento de que nas matas comem destes
animais. São brincalhões e falam uma linguagem infantilizada do tipo
tati-bi-tati.

Os caboclos adultos do sexo masculino tem o semblante carrancudo. Sua voz ,
normalmente faz-se ouvir claramente. Descem em geral estalando os dedos e
emitindo um som sibilante. Quando em reuniões, onde não haja o batuque dos
tambores, dançam em círculo, dobrando um joelho e deixando a outra perna
atraz (Pinto, 1995). Nas festas a sua coreografia muda assumindo os passos
dançados pelos "caboclinhos" dos folguedos populares do carnaval
pernambucano. As caboclas tem uma expressão facial de maior suavidade e,
normalmente, falam uma linguagem onde se intercala no início das palavras a
sílaba si.

Os Mestres

É morão que não bambeia

É morão que não bambeia

Os Mestres da Jurema

É morão que não bambeia.

(Gira de Jurema)

Uma outra categoria de entidades que recebem culto na Jurema é a dos
Mestres. Ao que parece o termo mestre é de origem portuguesa, onde tinha o
sentido tradicional de médico (Motta, 1985), ou segundo Cascudo (1931) de
feiticeiro. De forma geral, os mestres são descritos como espíritos
curadores de descendência escrava ou mestiça (índio com negro ou branco com
uma das duas outras raças). Dizem os juremeiros que os mestres foram pessoas
que, quando em vida, trabalharam nas lavouras e possuíam conhecimento de
ervas e plantas curativas. Por outro lado, algo trágico teria acontecido e
eles teriam "se passado" (morrido), se encantando, podendo assim voltar para
"acudir" os que ficaram "neste vale de lágrimas". Alguns deles se iniciaram
nos mistérios e "ciência" da Jurema antes de morrer, como o mestre Inácio ou
Maria do Acais e toda a linhagem de catimbozeiros de Alhandra, que após um
ritual denominado "lavagem" ganham um lugar nas cidades espirituais e passam
a incorporar nos discípulos que formaram (Vandezande, 1975). Outros
adquiriram esse conhecimento no momento da morte, pelo fato desta ter
acontecido próximo a um espécime da árvore sagrada.

No panteão juremista, existem vários mestres e mestras, cada qual
responsável por uma atividade relacionada aos diversos campos da existência
humana (cura de determinadas doenças, trabalho, amor...). Há ainda aqueles
especialistas em fazer trabalhos contra os inimigos. Nas mesas, as
representações das entidades relacionadas nesta categoria são as mais
elaboradas, geralmente possuindo o estado completo e a "jurema plantada"; em
especial a do "mestre da casa", aquele que incorpora no juremeiro, faz as
consultas e iniciam os afilhados nos segredos do culto. Por tudo isso esse
mestre é carinhosamente chamado de "meu padrinho".

Cada mestre está associado a uma cidade espiritual e a uma determinada
planta de "ciência" (angico, vajucá, junça, quebra-pedra, palmeira, arruda,
lírio, angélica, imburana de cheiro e a própria Jurema, entre outros
vegetais), existindo ainda alguns relacionados a fauna nordestina
(mamíferos - guará, preá -; aves - gavião, periquito, arara, pitiguarí -;
insetos - abelhas, besouro mangangá; répteis - cobras). Para os mestres
relacionados a uma outra planta que não a Jurema, são estas plantas (quando
arvores) que tem seus trocos plantados nas mesas dos discípulos.

I

"No outro mundo, do lado de lá!

No outro mundo, do lado de cá!

Tem um pé de árvore, Angico real.

Tem um pé de Jurema, tem um pé de Jucá,

Tem um pé de árvore, Angico Real.


II

Ai meu Deus, Mestre Angico sou eu.

Ai meu Deus, Mestre Angico será.

Os anjinhos tão no céu, a sereia no mar.

Ai meu deus mestre Angico Reá.

(Jurema de Mesa)

Por exemplo, a cidade de Mestre Angico deve ser plantada em um troco da
árvore do mesmo nome; as cidades das mestras geralmente são plantadas em
trocos de imburana de cheiro. No caso dos mestres que tem relação com
vegetais, são daquelas espécies que tiram a força e a "ciência" para
trabalhar. Os que tem relação com animais, acredita-se que eles possam
encantar-se em animais das espécies referidas, aparecendo em sonhos,
visagens e, muitas vezes, assim metamorfoseados quando incorporados em seus
discípulos.

Nesta categoria, como entre os caboclos, há uma distinção do gênero das
entidades. Distinção que irá determinar seus atributos e como devem ser
cultuadas.

O símbolo dos mestres masculinos é o cachimbo ou "marca", cujo poder está na
fumaça que tanto mata como cura, dependendo se a fumaçada é "as esquerdas"
ou "as direitas" (Pinto, 1995). Essa relação com a "magia da fumaça" é
expressa nos assentamentos dos mestres, onde sempre se encontra presente
"rodias" de fumo de rolo, nos cachimbos e nas toadas:

I

Setenta anos,

Passei no pé da Jurema.

Mas eu não tenho pena

De quem me faça o mal.

II

Se eu me zangar

Eu toco fogo no rochedo

Meu cachimbo é um segredo

Agora vou me vingar.

(Jurema de Mesa e Gira de Jurema)

Como oferendas, os mestres recebem a cachaça, que nunca deve faltar quando
estão presentes nos cultos, o fumo, seja nos charutos ou os utilizados nos
cachimbos, alimentos preparados com crustáceos e moluscos diversos. Com
essas iguarias, agrada-se e fortifica-se os mestres. A bebida feita com a
entrecasca do caule ou raiz da Jurema e outras ervas de "ciência" (Junça,
Angico, Jucá, entre outras) acrescidas à aguardente, é, entretanto, a maior
fonte de força e "ciência", para estas entidades. Nos terreiros que sofreram
maior influência dos cultos africanos, é comum o mestre receber sacrifícios
de galos vermelhos, bodes e, muitas vezes, até de novilhos.

Quando em terra, incorporados, os mestres já chegam embriagados, tombando
de lado a lado e falando embolado. São brincalhões, chamam palavrões, mas o
que falam é respeitado por todos. Durante o transe os mestres apresentam-se
com o corpo ligeiramente voltados para a frente. Na dança as pernas tem os
joelhos ligeiramente flexionados, o pé direito vai a frente e dá dois passos
para o mesmo lado, o pé esquerdo é arrastado; é então a vez do pé esquerdo
ir a frente no mesmo estilo de dança; variações vão sendo executadas tendo
como base o ritmo dos Ilus[11] e a letra das toadas.

Quanto as Mestras, reconhece-se seus assentamentos pela presença de leques,
bijuterias, piteiras, cigarros e cigarrilhas. Como no caso dos mestres,
existe uma infinidade destas entidades, com atributos e especialidades nas
questões mundanas e espirituais. Algumas casas fazem uma distinção entre as
mestras que trabalham "nas esquerdas" e "nas direitas". Nesta última
categoria, encontram-se mestras como a Gertrudes e a Lorinda, ambas
parteiras na vida material e hoje ajudam as mulheres no dar a luz a mais um
"ser vivente".

Algumas mestras morreram virgens, por isso ganharam o estatuto de princesas
quando ingressaram nas moradas do além. Vale lembrar os nomes de algumas
princesas como a Mestra Marianinha, a Princesa Catarina e a Princesa da Rosa
Vermelha.

I

"Sou Princesa da Rosa Vermelha

Sou Princesa que venho ajudar

Sou Princesa dos campos de Anadir

O meu ponto venho afirmar

III

Vinde, vinde, vinde minhas irmãs

Vinde, vinde, vinde me ajudar

Eu sou a Princesa Elisa

O meu ponto venho afirmar

(Jurema de Mesa)

Contudo, não é fácil encontrar, atualmente, a manifestação de tais mestras;
encontramos bem mais as chamadas "mestras das esquerda", entidades que em
vida material foram "mulheres de vida fácil"; mulheres das ruas e dos
cabarés nordestinos.

I

Homem pequeno

na minha cama não dormia,

Servia de cafetão,

nas horas que eu queria.

II

Mulher sozinha

é mulher de opinião,

É mulher de muitos homens

más só um no coração.

III

Eu vou dá uma,

vou da duas, vou dá três,

Se você me arretar,

eu dou quatro, cinco, seis.


(Gira de Jurema)

Lembremos das Mestras Paulina e Juvina, inimigas desde as "bandas de
Maceió"; Mestra Ritinha que se passou com quinze anos na Rua da Guia,
antigamente uma das mais populares zonas de baixo meretrício recifense e que
hoje abriga bares freqüentados pela alta sociedade da cidade; Mestra
Severina que residia no bairro do Pina e passeava no bonde do Loré quando
este percorria as velhas ruas da capital pernambucana; Júlia Galega da Zona
do Sul...

I

Tava na beira do Cais

Quando um naviu apitou

Um marinheiro me deu um abraço,

Apertou minha mão, minha boca beijou.

II

Ela é Julia Galega,

Foi num cabaré onde se passou

Seus cabelos loiros,

Na Jurema ela deixou.

III

É Julia Galega da Zona do Sul

Ela da lapada, tira o couro e come cru.

(Gira de Jurema)

Tais mestras são peritas nos "assuntos do coração", são elas que dão
conselhos as moças e rapazes que queiram casar-se, que realizam as
amarrações amorosas, que fazem e desfazem casamentos.

Todo jardim tem que ter uma flor,

Onde tem paz, tem que ter amor.

Home prá ser home, tem que ter mulher,

Dai-me um cigarro quem quiser Amélia chegou.

(Mesa de Jurema)

Muito vaidosas, quando incorporadas elas trasvestem os seus discípulos de
forma a melhor aclimatar a "matéria" as suas performances femininas. Quanto
a mudança corporal característica da incorporação das mestras, observamos
que quando estão dançando geralmente mantém uma ou as duas mãos dobradas com
a palma para fora, na altura da cintura ou quadris. Quando seguram um
cigarro, a palma da mão fica sempre distendida e a mostra. Na dança os
braços fazem arcos; ficam distendidos ao longo do contorno da roupa; em
alguns momentos, geralmente quando canta-se toadas que falam do corpo ou da
sensualidade feminina, as mãos passeiam pelo contorno da silhueta corporal.

Quando entre seus afilhados e discípulos no mundo material, bebem cerveja,
cidra e champanhe, embora não rejeitem outras bebidas que se lhes ofereça.
Gostam de comer peixe assado que é depositado em suas princesas para lhes
dar força para trabalhar. Algumas casas, as que se utilizam de sacrifícios a
estas entidades, elas recebem galinhas, cabras e novilhas.

Outras entidades


Além dos caboclos e dos mestres, vem na jurema, mas com menos freqüência, os
Pretos e Pretas Velhas. Espíritos de velhos escravos africanos, peritos em
benzeduras e nos conselhos que dão a seus "netinhos" dos terreiros. Temos
aqui, talvez, uma influência da Umbanda sobre o culto Juremista.

Contudo a influência dos cultos africanos é melhor expressa na incorporação
dos Exus e Pomba Giras ao panteão juremista. Na Jurema eles aparecem como os
servos dos mestres ou como mestres menos esclarecidos e mais propícios aos
trabalhos para o mal.

Junta-se a este panteão os Santos da Igreja Católica, que são
cumprimentados pelos mestres e caboclos, e os quais encontramos referências
nas toadas e nas orações utilizadas nos fazeres mágicos ensinados pelos
espíritos.

I

Minha Santa Terazinha,

Vós queira me ajudar.

Os trabalhos que eu fizer,

Outros não possam desmanchar.

II

Sou massapê,

Barrostroá!

Sou caboclo da Jurema,

Só faço o bem, não faço o mal.


Jurema de Mesa)

Também encontramos em algumas Juremas os Orixás do Xangô. Em algumas casas
se abre as giras de jurema cantando para os Deuses de origem africana depois
de saudar Exu. Entretanto as toadas são, geralmente, em português como na
Umbanda.

Caboclo Oxossi entrou na Jurema,

Mamãe Oxun levou para criar.

Mas ele é um rei caçador,

É filho da índia da cobra coral.

(Gira de Jurema e Jurema de Mesa)

Além disso, é comum os mestres indicarem serviços a serem feitos com o "povo
da bunda grande" (modo como as entidades de jurema se referem ao culto dos
Orixás), além de saberem quais os seus próprios Orixás de cabeça. Junte-se
ainda o Deus Supremo, que é sempre saudado pelos mestres e caboclos: "quem
pode mais do que Deus?" "Salve Deus!"

Os Ritos

Juremação e Tombo de Jurema

Olha o tombo na Jurema

No terreiro Juremar

Vou pedir força a meu pai

Licença pra trabalhar.

(Juremação)

Muitos juremeiros dizem que "um bom mestre já nasce feito";
contudo alguns ritos são utilizados para "fortificar as correntes" e dar
mais conhecimento mágico-espiritual aos discípulos. O ritual mais simples,
porem de "muita ciência" é o conhecido como "juremação", "implantação da
semente", ou "Ciência da Jurema". Este ritual consiste em plantar no corpo
do discípulo, por baixo de sua pele, uma semente da árvore sagrada.

Existem três procedimentos para se chegar a "juremação" dos discípulos. Em
um primeiro, o próprio mestre espiritual é o responsável pela implantação da
semente. Esse mestre promete ao discípulo e após algum tempo,
misteriosamente, surge a semente em uma parte qualquer do corpo. Um
segundo procedimento é aquele em que o líder religiosos (o juremeiro)
realiza um ritual especial, onde dá a seus afilhados a semente e o vinho de
Jurema para beber. Após este rito, o iniciante deve abster-se de relações
sexuais por sete dias consecutivos, período em que todas as noites ele
deverá ser levado em sonhos, por seus guias espirituais, para conhecer as
cidades e aldeias onde aqueles residem. Ao final deste período, a semente
ingerida deverá reaparecer em baixo de sua pele. Caberá, ainda, ao iniciante
contar ao seu iniciador o que viu em sonho para que este reconheça ou não a
validade de suas viagens espirituais e, por conseguinte, da juremação. Num
terceiro procedimento, o juremeiro implanta a semente da Jurema, através de
um corte realizado na pele do braço.

Há ainda, geralmente concomitante a ciência de Jurema, um ritual conhecido
como a "Ciência do Cachimbo". Este dará, ao iniciante, força em suas
"cachimbadas". Tal "ciência" é dada através do sopro invertido do cachimbo,
onde a fumaça é jogada pelo tubo do mesmo, diretamente sobre a pele do braço
do iniciante, até que o calor queime o local.

O "Tombo de Jurema" se constitui no processo pelo qual muitos dos mestres,
que hoje estão no mundo espiritual, passaram para ganhar a "Ciência".
"Tombam" no pé da jurema e ao acordar estão prontos para trabalhar. Foi o
caso do Mestre Carlos, famoso por seu dom de cura nas mesas de Jurema de
todo o nordeste.

I

Ôh de casa Ôh de fora,

Quem é que me bate aí?

É Jesus, Nossa Senhora

As portas me vai abrir.

II

Ôh de casa Ôh de fora

Louvado seja meu deus!

Com Jesus, Nossa Senhora

Mestre Carlos apareceu.

III

Mestre Carlos é um bom mestre

Que nasceu sem se incinar

Três dias levou caido

Na rama do juremá

Quando se alevantou

Foi mestre prá trabalhar.

(Jurema de Mesa)

Contudo, nos terreiros, o rito foi tornado bem mais complexo que sua
referência mítica. O tombamento consiste, então, no oferecimento de
alimentos e sacrifícios às correntes espirituais do iniciante. Nele comem o
Caboclo, o Mestre, a Mestra, o Exu e a Pomba Gira do iniciante. Acontece
ainda a juremação, com a implantação da semente através do corte na pele e a
viagem espiritual. A viagem deve acontecer no período que se intercala entre
a oferta dos sacrifícios ao caboclo e a preparação das comidas oferecidas em
banquete ritual. Ainda durante o sacrifício, o iniciante é levado, durante o
transe, para "correr as cidades espirituais". O interessante e singular
neste transe é que os adeptos acreditam que enquanto a pessoa (Ego) é levada
para realizar a viagem espiritual, o caboclo permanece no corpo do
iniciante.

Concluído o sacrifício, passa-se a preparação das carnes dos animais e a
partição das frutas e alimentos oferecidos aos encantados. O caboclo é
alimentado com uma pequena porção de tudo que foi oferecido. Findo o
banquete, o caboclo é então mandado de volta a sua cidade e o filho deverá
contar ao seu iniciador o que viu. Se sua viagem for considerada válida
segue-se os sacrifícios às demais entidades: o Mestre, a Mestra, o Exu e a
Pomba Gira.

No dia posterior, em animada festa, o caboclo, vestido a caráter, deverá,
como na iniciação do Candomblé, gritar o seu nome e também cantar sua toada.
O Iniciante também poderá vestir as demais entidades a quem "deu de comer".
A riqueza deste ritual completo está intrinsecamente ligada as condições
financeiras do iniciante.

Reuniões e Festas

Sexta-feira, 19:30 hs., seu Malunguinho já está em terra. Os
seus afilhados cantam para agrada-lo. A uma ordem do Mestre-Caboclo-Exu,
cachaça para os homens, vinho para as mulheres. Eventualmente a bebida feita
com a Jurema também é compartilhada pelos presentes.

Ninguém consegue ficar parado. A reunião prossegue e a vontade
de dançar aumenta. Muitos ensaiam algumas das coreografias próprias dos
toques de macumba. O espaço é mínimo, mas a vontade vence as limitações. O
primeiro andar da casa da mãe carnal de Gilmar se transforma em um
verdadeiro terreiro.

Outras entidades seguem o caminho aberto por seu Malunguinho e
também se comunicam com os presentes através do corpo dos Juremeiros. Em
Gilmar vêm o Mestre Junqueiro e a Mestra Paulina. Figuras consagradas dentro
da "Sagrada Jurema". Uns ou outros vem, vez e outra, às reuniões semanais na
casa/terreiro de Pai Gil no bairro de Brasília Teimosa, Zona Sul da cidade.
Assim também é na casa de Pai Carlitos, no bairro do IPSEP, onde é a vez do
Mestre Cibamba e da Mestra Severina tomarem a cena e comandarem os
"trabalhos espirituais".

Nos terreiros menores, como os supra citados, onde os pais de
santo ainda lutam para conquistar um espaço de destaque no concorrido
mercado religioso da cidade, são os mestres e outras entidades dos próprios
pais de santo que fazem a cena das noites de reunião. Nos terreiros já
consolidados, os filhos com "mediunidade desenvolvida", Jurema plantada e
cidades assentadas dividem e compartilham com os seus "Padrinhos de Jurema"
os trabalhos e consultas a serem realizadas.

"Cada Jurema é uma Jurema"; existem muitas formas de se
"trabalhar dentro da Ciência espiritual". Existem aqueles que realizam a
Jurema de Mesa em seus terreiros. Os discípulos sentam ao redor de uma mesa,
em cima destas alguns príncipes e princesas. Após louvar-se o nome do Nosso
Senhor Jesus Cristo, exaltar-se a força da Jurema Sagrada e de outras
Árvores encantadas, recitar-se uma oração Católica ou a "Prece de Cáritas",
abre-se as sessões.

Uma "Mesa" pode ser aberta "pelas direitas" ou "pelas
esquerdas". Nas abertas "pelas direitas", só as entidades mais elevadas
devem se fazer presentes: Caboclos, Índios, Princesas e Mestres que já estão
"perto de subir", todas "entidades de muita luz". Incorporadas elas dão
passes, receitam banhos de ervas e defumações, além de cantarem seus pontos,
afirmando assim sua força na Sagrada Jurema.

Quando se abre uma mesa "pelas esquerdas" qualquer tipo de
entidade espiritual pode vir. Os trabalhos não precisam, necessariamente,
visar o mal de alguém, contudo, aberto os trabalhos por este lado da
"ciência", já é possível devolver aos inúmeros inimigos, que estão sempre a
espreita, os males que estes possam estar fazendo.

Campos verdes, Campos verdes

Campos verdes do Senhor

Vamos virar os contrários

Pra cima de quem Mandou

Com as forças da Jurema

De Jesus Nosso Senhor

Em algumas casas as reuniões não ocorrem em redor de uma mesa,
mas perto da "mesa/altar" onde encontram-se assentados os encantados da
casa. Por vezes isso acontece pela falta de espaço no cômodo onde acontece a
reunião, em outros casos deve-se ao fato do terreiro não possuir médiuns
desenvolvidos, em número o suficiente para compor "a corrente" de uma mesa.
Contudo as entidades são chamadas, quase sempre, na mesma seqüência quando
as reuniões acontecem com os discípulos sentados ao redor de uma mesa.

Orações e saudações feitas, canta-se para abrir a "mesa" e chamar os guias.
Em algumas casas estes dão sua presença, afirmando que protegerão seus
discípulos durante a realização dos trabalhos. Canta-se então para
Malunguinho, o caboclo que pode vir como Mestre ou também como Exu. Para
alguns ele é o verdadeiro Exu da Jurema. Em seguida canta-se para os demais
caboclos do Juremá: Cabocla Aurora, Índio Tupi, Sete Flechas, Caboclo
Guarací, os Tapuias e os Canidés, a própria Cabocla Jurema e seus
"Capangueiros" do Além. Incorporando ou não eles são homenageados com toadas
próprias.

Subindo o último Índio ou Caboclo, é o momento de todos, exceto o
juremeiro-mor, se prostrarem de joelhos no chão e pedir ao Juremá licença
para entrar em seus domínios; é que os "Senhores Mestres" já vem chegando...



Ôh, Jurema encantada!

Que nasceu em frio chão!

Daí-me força e ciência.

Como destes a Salomão!

II

Rei Salomão bem que dizia

A seus filhos juremados

Para entrar na jurema, mestre!

Tem que Ter muito cuidado!


III

Rei Salomão bem que dizia

A seus filhos juremeiros

Para entrar na Jurema, mestre!

Tem que pedir lisensa primeiro

IV

Vamos salvar a Jurema, Mestre!

Vamos salvar Salomão

Vamos salvar a Jurema, Mestre!

Que é de nossa Obrigação.


V

Rei Salomão, Rei Salomão!

Arreia, Rial!

Rei Salomão do Juremá!

Arreia, Rial!

Eu vou chamar senhores Mestres!

Arreia, Rial!

Para com eles triunfar!

Arreia, Rial!

Os discípulos pedem benção aos Juremeiros mais velhos na casa. Saúdam com
benzenções a Mesa da Jurema e os artefatos dos Mestres. A Jurema é dita
aberta. Os Senhores Mestres começam a chegar.

Parece ser este o momento que todos esperam, a chega dos Mestres e, quando
estes se forem, a presença das Mestras. É o momento das consultas que sempre
têm clientela certa. Momento onde coisas sérias são tratadas com
irreverência, sem que no entanto percam a gravidade e o apresso dos mestres
e mestras, sempre prontos a ajudar a seus afilhados. Nos casos mais graves,
entretanto, o mestre logo marca um dia mais conveniente, onde poderá
realizar "trabalhos em particular". É assim que o mestre, traz os recursos
financeiros necessários para a manutenção da casa de culto e do seu
discípulo.

As ocasiões de festa, os "toques de Jurema" ou "Macumbas", tem inicio com
cantigas para Exu e em seguida para as Pomba Giras. Despachado os Exus,
segue cantigas para Malunguinho e posteriormente para os outros Caboclos.
Voltando os Caboclos para as suas aldeias, saúda-se a Sagrada Jurema e os
mestres começam a chegar. Canta-se para que os mestres subam e inicia-se as
toadas das mestras. Após a subida destas, uma Pai Nosso seguido de uma Ave
Maria encerra o culto aos espíritos. Segue-se, então, os festejos com o
Ajeum[14], por vezes acompanhado de um "Coco de Roda".

A Jurema e o Campo Religioso Afro-brasileiro

Senhores Mestres do Outro Mundo

Do Outro Mundo e deste também

Quero fechar meus trabalhos, senhores mestres!

Nas horas de Deus, Amém.

(Jurema de Mesa, Toada de encerramento)

A literatura clássica sobre o Xangô do Recife, tende a colocar como
distintas e incompatíveis o Culto à Jurema e o Xangô Tradicional. A
tendência é tomar como um dos critérios para identificar o grau de
tradicionalidade das casas de santo, a realização ou não de tal culto. Os
que cultuam o panteão juremista são logo caracterizados como sincréticos
(Umbanda e Xangô-Umbandizado). Entretanto, Pinto (1995) traz para a
literatura antropológica a importante constatação de que a Jurema, mesmo que
muitas vezes esteja discursivamente invisível, está presente em todos
aqueles espaços religiosos.

Mesmo nos Terreiros de Xangô mais tradicionais do Recife, alguns dos quais
sem nenhum espaço ritualmente constituído para cultuar os espíritos da
Jurema, estes reaparecem nas residências dos filhos de santo ou em terreiros
afiliados (para os filhos que alcançaram a senioridade e abriram casas),
recebendo culto de diversas formas.

Desse modo, não podemos entender a Jurema como uma forma
secundária de religiosidade ou prática mágico-curandeirística. Embora, não
possua ela uma existência autônoma, ou seja, ela apareça quase sempre
relacionada a outras formas religiosas como o Xangô e a Umbanda, vemos a
Jurema como tendo uma importância fundamental dentro dessas formas de
religiosidade.

Nas conversas com o povo de santo, as pessoas falam que "A
Jurema é quem dá o pão de cada dia", ou seja , é das consultas dadas pelas
entidades e dos trabalhos por elas recomendados que vem grande parte do
dinheiro para a manutenção da casa e de seus sacerdotes.

Além disso, mesmo almejando iniciar-se no culto aos Orixás e/ou
aprofundar-se em seus "fundamentos" (para os que já tenham se iniciado), a
grande maioria dos pais de santo iniciam sua carreira espiritual consultando
seus clientes e filhos com as entidades de Jurema.

"Que a Jurema é quem traz para o Candomblé. Porque você não vai virar com
(...) Oxum pra fazer uma consulta. Totalmente errado (...) Agora receber
Pomba Gira, Exu, Luziara (...) Ela consulta o consulente e ele sai alegre e
satisfeito. Mas já o Orixá, de maneira alguma. É uma coisa totalmente fina
(...) Então a Jurema é mais tranqüila para esse tipo de coisa." (Pai de
Santo, Nação Gêge)

Pensando na clientela, junte-se outros fatores que contribuiem
para a presença da Jurema nestes diversos espaços religiosos. Para uma
pessoa que esteja entrando em contato com a religiosidade afro-brasileira, a
Jurema causa menor estranhamento do que o culto aos Orixás. As entidades são
brasileiras e foram quando em vida pessoas do povo, as toadas são em
português e tanto elas como as conversas com as entidades versam sobre
problemas inerentes ao dia-a-dia: dinheiro, trabalho, sexo, amor, saúde,
etc.. Isso em um contato direto, face a face, com um ser sagrado. Além
disso, dizem os fieis, os resultados dos trabalhos feitos com as entidades
da Jurema, além de mais baratos, tem um sucesso mais rápido.

"Eu já sou mais apegado com a Jurema, sabe? Não sou muito apegado com
Orixás não. Eu gosto mais do Orixá, mas na hora do aperreio mesmo eu
procuro mais a Jurema. Não sei se eu sinto mais força na Jurema ou se é a
questão que eles falam, né? Sabem conversar então o santo em si não
conversa, o santo chega, faz o que ele tem que fazer e vai se embora. Então,
pra mim, o santo não ajuda outra pessoa, só ajuda os seus próprios filhos.
Agora, a jurema não, a jurema dá pra encarar de um modo diferente. Que
ela.... você pede pra falar com um mestre, você concentra, chama o mestre, o
mestre vai ver o que está acontecendo, as vezes não precisa nem falar, se é
um bom médium mesmo. (..) Ele já fala o que é que tá acontecendo e o que
precisa ser feito. Então é isso que me apega mais com a Jurema." (Filho de
Santo, Nação Angola)

Também o uso da bebida, que circula entre homens e seres divinos, todos
bebendo de uma mesma taça, num crescendo de animação, promovidas pela
própria bebida atrelada aos cânticos e danças e pelo contexto próprio, ou
seja, um culto de religação como o mundo espiritual (e com tudo o que isso
possa significar para cada um dos presentes), leva a mobilização da energia
que faz de um aglomerado de pessoas um grupo.

Nesta perspectiva, é de se ressaltar que é o Culto a Jurema entra como um
dos elementos que atrai adeptos para os terreiros de Xangô e de Umbanda. Não
é apenas o brilho das festas que atrai as pessoas para estas formas de
religiosidade. A assistência prestada pelos encantados aos que a eles
recorrem, já levou muitos católicos e mesmo protestantes , em busca de
alívio para as "mazelas do mundo", se tornarem juremeiros ou
filhos-de-santo. Por outro lado, é nessa rotinização do pensar do grupo - os
ritos - que os padrões de pensar e se comportar são passados para as pessoas
que buscam o culto. A periodicidade com que acontecem, o fato de serem
momentos de sociabilidade, faz das reuniões de Jurema a primeira instância
de socialização dos grupos afro-brasileiros do Recife. É através dela que
surge o sentimento de pertencimento que mantém as pessoas nos grupos. Ao
nosso ver, atrair pessoas e manter vivo os grupos são o papel destas
pequenas festas que são cada uma das reuniões de Jurema. Momento em que se
vem fumar, beber e trocar idéias com os seres encantados do "outro mundo".




Salve todos os Mestres Juremeiros, do Angico e do Vajucá!
Saravá Mestre Carlos!
Salve Rei Malunguinho!

"Malunguinho na mata é rei!
Rei da mata é Malunguinho!
Firmei meu ponto, sim!
No meio da mata, sim!
Salve a coroa, do Rei Malunguinho!
E Malunguinho é Rei, é Rei das Matas..."





Bibliografia

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Fontes de Pesquisa:

Edição do fantástico do dia 11/12/2005
Wikipédia
"As outras Religiões Afro-Brasileiras" - Maria do Carmo Tinoco Brandão (1) e
Luís Felipe Rios do Nascimento (2), na VIII Jornada sobre Alternativas Religiosas na
América Latina - SP - 1998
(1) Doutora em Antropologia. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia da UFPE.
(2) Psicólogo Clínico e Mestre em Antropologia pela UFPE.



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