Princípios Educacionais da Umbanda

Princípios Educacionais da Umbanda


Educar é todo ato de ensino-aprendizagem, toda ação em que há troca de saberes. A educação acontece em todos os lugares, mas de forma diferenciada. O mesmo se aplica a religião: todo lugar em que há interação, há educação.

A palavra religião é de origem latina, vem de religio, que se traduz em “prestar culto a uma divindade”, “ligar novamente” ou simplesmente “religar”. Sendo assim, entende-se como religião as crenças e valores inerentes do que o ser humano vislumbra como sobrenatural, seus rituais e códigos morais que derivam destas crenças(AZEVEDO, 2010,p.7). 

Para delimitar o campo de estudo, às religiões de matrizes africanas serão aqui denominadas como umbanda ou, umbandomblé , por serem as mais frequentes em Itaberaba. 

A umbanda surge da necessidade de assistir os espíritos ancestrais, como os espíritos indígenas, que no candomblé eram tidos por egum , e para os kardecistas eram espíritos “sem cultura” e não podiam trabalhar nestes centros. 
Mesmo que cada Casa tenha particularidades no culto, “a doutrina, como uma regra ou conduta moral” é imprescindível para condução dos trabalhos no terreiro. Essas práticas religiosas têm doutrinas diferenciadas de casa para casa, contudo alguns preceitos são onipresentes em todos os seus seguimentos. Não é como nas outras religiões que possuem um livro canônico que regem suas atividades. Mas absorve o que há de bom em todos os seguimentos religiosos para por em prática o princípio da caridade.
A umbanda é uma religião própria, uma verdadeira africanização da religião brasileira, pois o culto aos ancestrais já acontecia na África, nas terras dos bantos, antes da colonização européia (AZEVEDO, 2010, p.132) e a religião indígena também prestava culto aos antepassados. Nela estão presentes elementos africanos, ameríndios, bruxaria européia, Kardecismo e cristianismo, sendo influenciada ainda pelas culturas orientais (AZEVEDO, 2010, p.24). Não é puramente incorporação, ritualismo e coreografia, mas, sobretudo o espiritual, buscando a razão da existência (ORPPHANAKE, 1995, p. 42). 
Como ápice da religião está uma divindade criadora do universo. Ao contrário do que propagaram as religiões cristãs, a umbanda não é uma religião que cultua vários deuses, mas um Deus supremo, chamado Olorum , Zambi , Oxalá , Tupã ou Jesus Cristo. Portanto, esta é uma religião monoteísta, “com uma hierarquia organizada abaixo do Deus único” (AZEVEDO, 2009, p.19). Presta-se um culto secundário aos Orixás “como manifestações divinas”, as entidades espirituais e os guias, que são espíritos ancestrais, evoluídos, que se incorporam aos médiuns para desenvolverem trabalhos em prol da humanidade (AZEVEDO, 2010, p. 8-9).
A própria etimologia da palavra “umbanda” nos remete ao monoteísmo, pois esta deriva dos fonemas aum (a Divindade suprema), ban (conjunto ou sistema) e dan (regra ou lei), que pode-se interpretar como “o conjunto das leis divinas” (AZEVEDO, 2010, p. 132).
No culto aos orixás como divindades secundárias, observa-se o princípio educacional primordial da umbanda: o respeito à natureza. Os orixás são em sua essência natureza. As questões ritualísticas, como oferendas feitas nas cachoeiras e nas matas são motivo de constante discussão entre ambientalistas e umbandistas. Mas desde o ingresso na religião, estes são instruídos a preservação ambiental. Ao desperdiçar água, por exemplo, o homem estará ofendendo a Oxum e Iemanjá, que são a própria água. O orixá é em si, natureza. 
AZEVEDO diz:
[...] vemos o culto aos orixás como manifestação divina. Cada Orixá controla e se confunde com um elemento da natureza, do planeta ou da própria personalidade humana, em suas necessidades e construções de vida e sobrevivência. O culto também ocorre nas Casas de raiz indígena, que o fazem valendo-se dos deuses daquele panteão [...] (2009, p.19).
Além do culto aos orixás, presta-se um culto terciário: aos pretos-velhos, caboclos, boiadeiros, marinheiros, baianos e outras entidades que assumem caráter regional. Como seguem uma hierarquia, os caboclos ocupam a mais alta falange.
Há também outra entidade que é cultuada em todo seguimento de umbanda: Exu. Esta entidade, importantíssima no culto, foi erroneamente sincretizado com o diabo cristão. Contudo as concepções de diabo e inferno não estão presentes nas religiões afro-brasileiras. Sobre isso, CUNHA JUNIOR diz:
“Os diabos e demônios não fazem parte da cultura africana. Sendo assim, as religiões de base africana não conhecem estas figuras e não têm nada a ver com elas. Por racismo contra a população negra é que pessoas desinformadas dizem que Candomblés são cultos de natureza diabólica [...]” (2009, p. 97).
Exu é um espírito neutro, que serve como mensageiro por ser “dono” das encruzilhadas. O orixá Exu não é cultuado na umbanda, mas sim espíritos que trabalham sobre sua vibração, como Pomba giras e exus de rua (AZEVEDO, 2010, p. 49).

Acredita-se que, toda pessoa ao nascer tem sua “cabeça” oferecida a um orixá, que regerá a vida do filho em todos os aspectos. O filho também é assistido de outros guias espirituais que, pela hierarquia, estão abaixo do seu orixá. Acredita-se que cada pessoa tem sete orixás regendo sua vida, e merecem o zelo do seu pupilo.
Há também um respeito aos valores humanos como: a fraternidade, a caridade e o respeito ao próximo. Contudo, a virtude máxima de umbanda, seja qual for seu segmento, é a caridade, e dela desencadeiam todas as outras.
A umbanda tem como crenças comuns: a imortalidade da alma, a reencarnação e as leis kármicas (AZEVEDO, 2009, p. 20). Acredita-se que, o espírito imortal recebe a oportunidade de retornar à vida (reencarnar) para “pagar” dívidas das vidas passadas. Alguns reencarnam com o dom da mediunidade, que é a capacidade que o indivíduo tem de se comunicar com o plano espiritual e que, antes de encarnar-se é pedido ao criador, com fim de trabalhar em prol de quem prejudicara em vidas anteriores. A mediunidade manifesta-se independentemente de religião (ORPHANAKE, 1995, p. 16).
O desenvolvimento mediúnico deve valer-se de dois pilares fundamentais: o estudo e o desenvolvimento (AZEVEDO, 2009, p. 22). O conhecimento não cabe somente ao guia espiritual, pois o conhecimento desenvolvido por ele, quando incorporado, a ele pertence. O médium deve buscar seu próprio conhecimento, através do estudo, ajudando-se mutuamente, lhes fornecendo boas condições de trabalho. Assim, um médium sábio será assistido por espíritos do mesmo nível, oferecendo-lhe “condições morais e mentais para tal” (ORPHANAKE, 1995, p. 67). Pois, “a instrução e o conhecimento fazem parte da fé” (AZEVEDO, 2009, p.23).
Outro fator comum às casas de umbanda, assim como no candomblé, são os rituais de iniciação, que introduzem o fiel na religião. Contudo, variam de casa para casa, e geralmente se dividem em: manifestação, adaptação, batismo, culto e os trabalhos, também chamados de obrigações ou festa (AZEVEDO, 2009, p. 20-45).
A utilização de ervas é outro aspecto que merece atenção. São utilizadas em grande parte dos rituais sagrados, principalmente nos banhos e sacudimentos, com função de equilibrar as energias, tanto do ambiente, quanto do corpo. Os banhos podem ser classificados em: descarrego, defesa e energização. Sendo que são utilizados de formas especificas para cada caso, pois cada pessoa tem guias diferenciados (AZEVEDO, 2009, p.48-49).
A mesma importância é dada ao ebó, que é um ritual de purificação, ou uma oferenda pra reequilibrar as energias do filho com as dos seus orixás. É muito utilizado pela umbanda de nação. Deve ser usado única e exclusivamente para este fim, nunca para desejar o mal a qualquer pessoa (AZEVEDO, 2009, p. 55).
O respeito aos mais velhos é outro princípio que merece destaque. Na umbanda, quanto mais idade tem o indivíduo, mais respeitado ele é. Hierarquicamente, ficam abaixo, somente, do babalorixá ou da yialorixá , sendo respeitados mesmo por estes (AZEVEDO, 2009, p.56). 
Outro assunto que suscita polemica é o que concerne ao sexo e a sexualidade. A abstinência sexual antes e depois de alguns ritos dar-se por que a energia que o corpo emite durante a atividade sexual é muito intensa, podendo desencadear aspectos tanto positivo, quanto negativo. Durante o ato, o médium, além de perder muita energia, corre o risco de entrar em contato com energias que o desequilibre. Contudo, a atividade sexual é natural e jamais poderá ser tachada de imoral. Assim, este período de abstinência serve para manter as energias em equilíbrio (ORPHANAKE, 1995, p.46-47).
Na umbanda, quando se fala em sexualidade, não se está falando em gênero, mas em essências, masculinas e femininas. Há certas funções essencialmente desempenhadas por homens, outras por mulheres. Contudo, a essência não está ligada a gênero ou ao sexo, pois ela os precede. Há homens com essência feminina, que emanam e concentram essa energia, e o contrario também se dá. Por isso a umbanda não tem restrição alguma a presença de homossexuais em seus cultos, pois para ela o que importa é o espírito, a essência, não a carne (AZEVEDO, 2010, p. 139-141).

Na atualidade existem muitos cursos com visas a ensinar as várias “práticas de umbanda”, contudo a forma mais sábia de compreender e absorver os valores fundamentais para a boa prática religiosa é vivenciando a religião. Sendo que o método de doutrinação, que a umbanda herdou dos africanos fora a transmissão oral (AZEVEDO, 2009, p.56).
Para AZEVEDO: 
[...] nenhum ser humano, especialmente no que concerne aos deuses, é detentor de qualquer verdade universal. A verdade que nos liga ao transcendente é única e verdadeira apenas dentro de nossas almas (2010, p.11).
Enfim, pode-se concluir que a umbanda é uma religião brasileira, que se norteia em um Deus único, no culto aos orixás e espíritos ancestrais, que utilizam da mediunidade para fazerem acontecer: a caridade, a fraternidade e o respeito ao próximo. Acolhe a todos, sem distinção de raça, sexo, classe social... Sua principal virtude, a caridade. E sua lei, a do retorno. 

Danilo Reis

Bibliografia:

AZEVEDO, Janaina. Tudo que você precisa saber sobre umbanda. São Paulo: Universo dos livros, 2010. Volume 1.
____. Tudo que você precisa saber sobre umbanda. São Paulo: Universo dos livros, 2009. Volume 2.
CUNHA JUNIOR, Henrique. Candomblés: como abordar esta cultura na escola. In: Revista Espaço Academico, nº 102. Novembro de 2009. Ano IX. Disponível: periodicos.uem.br/ojs/índex. php/espaçoacademico/ article/viewfile/.../4810 Acesso em: 07/07/2010.
ORPHANAKE, J. Edson. Mediunidade e seus problemas. 3ª Ed. São Paulo: Pindorama, 1995

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