A Macumba tá na Cabeça

A Macumba tá na Cabeça


Acredito, e sempre foi assim, na importância de se conhecer o que de fato as coisas são. A Umbanda no Brasil é uma prática muito mal interpretada, assim como nem sempre conduzida nos terreiros, regida por Oxalá. A raiz do candomblé também se diferencia do processo de adaptação brasileira à religião, pelo simples fato de no Brasil o processo de sincretismo, influenciado pela igreja católica, influenciar, fortemente, as premissas filosóficas dos cultos às almas. A contribuição da cultura mercantilista, também contaminou e, muito, o exercício dos rituais e dos trabalhos oferecidos, aliás, vendidos, aos necessitados. A espiritualidade afro é significativa e de contribuição relevante para a evolução do planeta, porém, necessita de uma humilde reavaliação de alguns de seus praticantes. 

A Umbanda não é macumba, para começar a conversa. Macumba é uma tradução originada do Quimbundo, “makanha”, modificada de “dikanha”, cujo significado é tabaco. A linguística do Banto que processou pela primeira vez seu significado, reportando-se a um instrumento musical de finalidade relacional com a magia. As poucas informações que temos sobre a etnia africana, conduzem-nos a um mundo diversificado, envolto em fenômenos naturais onde o homem exerce, meramente, uma participação de igualdade nesse sistema denominado de primitivo pela ascendência ocidental. A magia está ligada àquilo que vai a frente, distanciando-se da realidade concreta, do controle de uma espécie sobre a coisa que escapa de suas mãos. 

O povo grego delegava o poder de relação com esse mundo mágico, apenas à categoria sacerdotal. Influenciados pelo povo persa que tinha no “magush” os sacerdotes que interpretavam sonhos. Geograficamente, os egípcios também foram contaminados pelo papel e a responsabilidade desse personagem. Vale lembrar que o Egito situa-se no norte do continente africano, logo, berço e fonte de inspiração para o conhecimento que está sendo analisado, mesmo com a intensa corrente mulçumana que domina o país. Para o convívio com a adversidade natural e o desconhecimento em relação aos impactos provocados pela natureza. 

A convivência fez com que os mitos, mensagens discursadas pela elaboração de relatos imaginários, transformados em lendas. Simplesmente, uma interpretação elaborada, seguindo a possibilidade do olhar do povo, sobre o que acontecia. A fim de provocar uma condição para essa interação, do mito derivava o rito, ou cerimônia, usada como costume, sobre uma aspecto religado a Deus ou ao sobrenatural. O fumo, vinda de plantas nativas, era utilizada nos ritos, assim como os sons, ou música nativa, sendo o a macumba um instrumento para a reprodução das composições. 

Fumaça, fogo e outros, eram analogias produzidas pela natureza, como da mesma forma o sons emitidos pelo vento, os bichos e a chuva. Cada grupo de episódios naturais, era concebido como uma poderosa força, regida, então, por um respectivo Orixá, ou Deus pela tradução cristã. O Orixá compõe um significado e um símbolo, retendo todos os atributos do grupo específico. O ritual, assim como a oração e o louvor, passou a serem movimentos de condução à aproximação dos Orixás. Já as almas, eram continuação da vida na terra, legiões de soldados de Oxalá, agindo em prol do bem e da harmonia, com funções e responsabilidades específicas. Pretos velhos e cablocos trabalhando, operários do bem. Originalmente, na filosofia africana, Exu é orixá, não alma. 

A finalidade é a aproximação com a energia dos Orixás e a obtenção do merecimento de suas capacidades, ou benevolência, em termos de harmonização e de equilíbrio. Através das almas, a manipulação do contexto vibracional ou energético, a fim de manipular e transformar as descargas provocadas pelos consequentes efeitos negativos surgidos, nessa gênese da convivência. No Brasil, a escravidão e todos os conflitos vivenciados pelo povo africano, motivaram uma luta entre os próprios homens, semelhantes nessa formação natural. O oportunismo, com o passar do tempo, alcançou um declínio comercial desses rituais, demovendo a força do ritual para trabalhos de macumba, deturpando seus conceito e princípios. 

A meu ver, a transformação citada no parágrafo anterior, é ampla e profunda, fugindo da mesmice do alcoolizar-se e fumar compulsivamente. Os filhos de santo, ou dos Orixás, devem conquistar a autorização para entrarem e frequentarem as frequências dos consulentes e dos fatos ocorridos. A alam límpida traduz a ligação com seu Orixá, o guia, e a troca com as almas. A interpretação dos recursos utilizados pela natureza, provocando efeitos sobre a matéria, é outro aspecto. O médium em si, é mero representante da alma que manuseará essas energias, sem a necessidade de protocolos, ou seja receitas pré-definidas para cada caso semelhantes. Tudo isso poderá levar a um resultado para o bem e para o mal, como tudo que acontece para a vida. Lembrando que equilíbrio e harmonia é o preceito. Trabalhar com a magia não é macumba, nada pejorativo, apenas um princípio de transmutação, aprofundado e especializado, onde a humanização dos processos deve acontecer em patamares mínimos para a real eclosão dessa mudança. 

Negar ou denegrir essas práticas, foge, aos patamares da maior e mais importante de todas as religiões: o respeito. A união às práticas energéticas dá permissão para o encaminhamento daquilo que é mais enraizado e bruto para os espíritos empobrecidos de amor e de sabedoria. Cada um no seu quadradinho, essa é a reta para a ascensão tão esperada e necessária para uma humanidade ainda embrutecida e carregada de vícios. 

Clécio Carlos Gomes



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