A Dança na Umbanda


A dança na Umbanda


Lembramo-nos de uma conversa com um companheiro de nosso cazuá, o qual lembrava-se naquele instante de um ensinamento passado a ele por nossa mãe-de-santo há muitos anos: A força do Guia está na mente do médium.

O movimento rítmico é a linguagem fundamental para expressarmos aquilo que experienciamos interiormente e cujo significado encontra-se além da razão. Aquilo que não pode ser expresso somente por palavras, encontra um profundo sentido e expressão na dança ritualística.

Essa realidade da manifestação espiritual na Umbanda reside em experiências as mais remotas, que temos vivenciado desde nossas primeiras encarnações como seres humanos neste planeta Terra.
Cremos que as primeiras práticas religiosas surgem do contato direto que os homens primitivos encarnados tiveram com os Espíritos e com fenômenos co-relacionados a estas experiências transcendentes. A repetição destas experiências afixou-se em nossas estruturas inconscientes, as quais compartilhamos coletivamente (inconsciente coletivo).
A dança está, portanto, diretamente relacionada a cultura, a religião e a arte.

A palavra Reigen, ou dança em roda, é vista como herança dos ancestrais. Langer diz que "a dança em círculo realmente simboliza uma das realidades mais importantes da vida dos homens primitivos - o reino sagrado, o círculo mágico. O Reigen, enquanto forma de dança não tem nada a ver com o saltitar espontâneo; preenche uma função sagrada da dança - divide a esfera da santidade da esfera da existencia profana. Dessa maneira, ele cria o palco da dança, que se centraliza naturalmente no altar ou seu equivalente - o toten, o sacerdote, o fogo - ou talvez o urso abatido ou o chefe morto a ser consagrado" (Langer, apud Fatima 2001).
A dança ritualística corresponde a uma oração corporal, a prece em movimento. No entanto, durante a ascenção do Cristianismo na cultura ocidental, o corpo foi desconsiderado e visto como instrumento de pecado, merecendo, portanto, o repúdio. Por exemplo: entre os anos 465 e 1453 da era cristã, o ato da dança era considerado pecado gravíssimo perante a Igreja.
Assim, na cultura cristã, a prece passou a ser somente falada, pensada, mentalizada, tornando-se um ato mais abstrato e individualista.
Segundo cremos, a execução da dança ritual serve como instrumento de harmonização do indivíduo com o Cosmo, reordenando em si as forças do universo, reintegrando-as em nós mesmos.
A oração corporal, expressa pela dança ritual, coloca a prece em movimento, promovendo a harmonia entre espírito - mente - corpo, canalizando as energias transcendentes, advindas do mundo espiritual, e externando-as na dimensão material.
Sendo assim, sentir, pensar e agir, se tornam em movimento ritual (Fatima, 2001)
"O movimento sempre foi empregado com dois propósitos distintos: a consecução de valores tangíveis em todos os tipos de trabalho, e a abordagem de valores intangíveis na prece e na adoração. Ocorrem os mesmos movimentos corporais tanto no trabalho quanto na veneração religiosa, conquanto difira na sua significação em ambas as instâncias" (Laban, apud Fatima, 2001).
Na Umbanda, o fenômeno mediúnico consolida-se no movimento. Este, por sua vez, ocorre na dança ritualística, pela qual o médium comunica corporalmente seu estado de transe e deixa transparecer "o outro" espiritual que naquele momento apodera-se, mesmo que parcialmente, de sua mente.
"A dança, por isso, não é apenas a transparência do divino, assim como uma janela aberta, uma vista para o divino. A dança também não é uma viva imagem reminescente - a dança é, em tempo e espaço, um signo, um acontecimento visível, uma forma cinética para o invisível" (Wosien, apud Fatima 2001).
Hanna afirma que "dançar pode levar a estados alterados de consciência (que mudam os padrões fisiológicos na frequencia das ondas cerebrais, na adrenalina e no açucar do sangue) e, em consequencia, à alteração da ação social"(Hanna, apud Fatima 2001).
Isso implica que o médium, utilizando-se da dança ritual, perca o controle sobre si mesmo. O que é natural, pois para que possa haver o contato mediúnico, ou seja, para que a mente do médium possa ser acessada por outra mente (a do Guia), é necessário que por instantes este perca o controle sobre si mesmo.
Na dança ritual o médium libera a irradiação da energia espiritual de seu Guia, por meio da expressão mental manifesta no corpo. O Círculo feito durante a dança (em volta de si mesmo e em volta do centro imaginário do terreiro) afasta tudo o que se refere à consciência objetiva e individual do médium, concentrando ali somente o que há de espiritual e divino em si. Neste momento, tudo o que pertence a esta vida sai de cena para emergir do mais inconsciente do médium a sua realidade plena e espiritual, em união com o sagrado, o divino, o seu Orixá.
Fazendo uma analogia, o movimento circular, característica geral da dança ritualística, simboliza o arquétipo junguiano do Self (centro e totalidade da personalidade humana). O círculo possui uma propriedade simbólica de perfeição, ausência de divisão, homogeneidade (Almeida, 2005).
Na verdade, são quatro os símbolos fundamentais e universais: círculo, quadrado, cruz e centro.
O centro, além de ser um dos símbolos fundamentais, aparece na liturgia sempre associado a um dos outros símbolos, devido a idéia de movimento expressa por essa conjunção centro-eixo, presente na estrutura dos demais símbolos (cruz, círculo e quadrado).
Assim é que nas danças circulares sagradas, os movimentos rituais dão-se em relação a um centro disposto no local, geralmente simbolizado por um ou mais elementos tais como: vela, fita, imagem, símbolo cabalístico (ponto riscado, no caso da umbanda) ou a cruz. Tais elementos dispostos no centro do terreiro, têm a função referencial de conjução entre o terreno e o divino, espiritual e material, o "axis mundi" (ponto de ligação entre a Terra e o Céu).
Ao longo do transe, as entidades manifestadas pelos médiuns, executam danças e gestos que caracterizam e exprimem símbolos arquetípicos de caráter numinoso, como identificação da espiritualidade umbandista, como sejam os movimentos circulares ou em forma de cruz, as representações feitas (geralmemte com as mãos) simbolizando flechas, espadas, lanças, espelhos, pentes, laços, etc.
Sachs fala das danças medicinais xamânicas. Nestas práticas, o doente era colocado no centro do círculo, e o xamãn, médico, curandeiro, dirigia a dança circular, até que os dançarinos entrassem em êxtase, até que subjugassem aquele espírito da enfermidade que tomava aquele corpo doente, o afastassem, ou o possuindo em si mesmo (no sentido da possessão) pudessem vencê-lo (Almeida, 2005).
Aqui está um dos grandes sentidos de trabalhos de ordem espiritual, visando a cura (física, psíquica e espiritual) muitas vezes empregados pelos nossos Caboclos, principalmente, em nossas giras. A corrente mediúnica é mobilizada a trabalhar com seus guias, pela dança ritualística, em torno de um enfermo (geralmente posto ao centro ou a frente do conga) sob o qual serão direcionadas as irradiações dos Orixás e do qual serão retiradas e dispersas as negatividades de várias ordens.
A dança ritual também foca a atenção aos pés, conectando-nos com a Terra. O pé é o símbolo de nossa força, pois é ele quem nos mantém eretos. Pelos pés inicia-se o enraizamento de nossa vida psíquica, corpórea e espiritual (Almeida, 2005).
O médium em transe mantém os pés sempre em ligação com o chão, simbolizando a ligação com a Terra, a ancestralidade (os pés descalços relembram as danças dos Negros e dos Indígenas Brasileiros). O corpo do médium neste momento simboliza a memória coletiva de um povo e a tradição da cultura Umbandista.
A prática da dança ritualística de maneira ordenada e efetuada com conhecimento ocasiona uma condição de saúde mental, valoriza a imagem corporal do indivíduo e coloca-o em uma condição de relacionamento saudável consigo mesmo e com a coletividade.
Havíamos colocado uma perspectiva a respeito do princípio de Individualidade do ser humano, a qual manifesta-se pela multicorporeidade, ou seja, na existência de não só um, mas vários corpos. Estes corpos sutis são portadores de movimento/vibração, sendo que estes, ao movimentarem-se de maneira harmoniosa, promovem a homeostase, a condição de saúde (mental, emocional e física).
A dança ritual estabiliza estas estruturas, integrando-as com o corpo físico, abrindo campo para os estados alterados de consciência (estados superiores de consciência) em forma de transe mediúnico, conforme já havíamos salientado. 
A essência da dança é holistica (Fatima, 2001), ou seja ela integra aspectos sociais, espirituais e cósmicos. Por conta disso, utilizamo-nos do movimento para expressarmos nossas tradições; o contato com o mundo espiritual; a alteração da consciência.
O sentido de irmos para dentro de nós, fazendo emergir a luz divina de nossa realidade mais essencial, porta pela qual "passam", de Aruanda para a Terra, os nossos Guias e Protetores, está em razão de podermos encontrar sempre, no fundo de nosso ser, a grandiosidade do Orixá que vive dentro de nós e possamos compartilhar com a vida os resultados desta busca, pela beleza e pela musicalidade de nossas práticas espirituais, profundas em sabedoria e sensibilidade.
Gregorio Lucio


Referências:
Fatima, Conceição Viana de (2001). Dança Transcendente (tese de mestrado)
Almeida, Lucia Helena Hebling (2005). Danças Cirulares Sagradas: Imagem corporal, qualidade de vida e religiosidade segundo uma abordagem Junguiana (tese de doutorado)
Santos, Tadeu dos (2003). O corpo como um texto vivo (artigo científico)
Pelliciari, Fabiana Sampaio (2008). Estudo da Significancia do corpo na Umbanda: limites e possibilidades de aplicabilidade de alguns conceitos lacanianos (tese de mestrado).





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