Setembro 2020 - Tenda de Umbanda Luz e Caridade - Tulca

13/09/2020

Amar e Ser Amado pelo Divino





Eu vou contar a historia
De minha avó, que é algo 
Que sempre me tocou muito.


Quando eu era pequena 
Minha avó era mãe de Santo
E todos sabiam que era filha de Oyá,
Porém eu sempre reparava
Que ela nunca tirava o fio
De contas douradas do pescoço,
Usava Idés e tudo mais,
Então um dia enquanto ela 
Se arrumava eu perguntei:


🌼— Vó, porque a senhora sempre usa fio de Oxum e idé dourado? Ela não é sua santa, então porque disso?


Ela, uma negra retinta
De baixa estatura
E de feições delicadas como 
As de uma boneca 
Mesmo ja sendo idosa 
Sacudiu os pulsos e as pulseiras douradas
Que usava tilintaram,
Sorriu para mim e se sentou
Do meu lado, ali contou a historia.


Era o ano de 1945
Quando minha bisavó, dona Cleuza,
Veio da Bahia para trabalhar 
Em uma fabrica em São Paulo.
Hoje a fabrica já é extinta
Mas na época todos conheciam
A grande tecelagem
Mariângela do bairro Brás,
E lá ela trabalhou muito.
Na mesmo epoca
Conheceu meu bisavô,
Seu Jarbas, ele era de Pernambuco
Mas estava em São Paulo
Para trabalhar na construção Civil.
Ele se casaram e
Em 1948 ela ficou gravida,
A fábrica deu-lhe uma licença
E ela foi ter o bebê.
Naquela época não havia SUS,
E minha bisavó acabou não tendo
Nenhum tratamento pré Natal,
Na época isso nem existia
E mesmo se existisse
Não estaria disponível a uma mulher
Preta e pobre. 
O jeito foi ir parir na 
Santa Casa de Misericórdia,
As freiras não eram racistas o suficiente 
Para negar atendimento 
A uma parturiente,
Então lá nasceu minha avó.
Nasceu quieta, flácida,
Não chorava nem se mexia
E nem sequer consegui mamar,
Ficava imóvel e de olhos fechados
Como se fosse morta.
Minha bisavó se desesperou 
E perguntou aos médicos 
O que a criança tinha
Mas eles não deram muita bola,
Fizeram alguns exames básicos e disseram
Que ela não sobreviveria.
Um bebe preto e filho de nordestinos
Não trazia aos doutores interesse.
Vovó ainda estava viva mas 
Eles já tinham dado a ela a
Sentença de morte. 
Minha bisavó, uma baiana muito arretada
Não aceitou ver a filha morrer 
Naquele hospital sujo,
Então pediu para ir embora com o bebê.
As Freiras disseram que não podia
Tinha a restrição medica de ficar 
Pelo menos mais um dia internada,
Mas minha vó fez pé firme,
Então elas disseram que "tanto fazia".
Foi assim que minha bisavó 
Saiu do hospital poucas horas depois do parto.
Como ela teve forças pra sair correndo 
Logo depois de parir?
Eu não sei, mas aquela mulher 
Era fantástica e fez isso.
Minha bisavó era do santo 
Na Bahia foi iniciada para Oxum,
Era uma Ekeji,
Então assim que saiu do hospital 
Disse a meu bisavô que precisava 
Levar o bebê para um terreiro.
Mas que terreiro?
Vocês hoje em dia jogam na internet 
E ficam sabendo onde estão as coisas
Mas naquela época nem celular existia,
E os terreiros era tão poucos na cidade 
De São Paulo
Que ela não conhecia nenhum.
Pegaram o ônibus para a Zona Norte 
Ele fazia sua parada final na perto 
Do Tucuruvi.
E ela veio rezando o caminho todo,
Embalava a filha nos braços, 
Um bebe semi morto.
Desceram no Tucuruvi 
E tomaram um carro de aluguel 
Pois moravam pro fim do Tremembé
La pra aqueles lados que eram 
Fazenda de japoneses.
No meio do caminho minha bisavó 
Fechou os olhos e com toda a fé 
Que tinha rezou.


"Minha mãe Oxum me ajude, salve me meu bebê, eu sei que a senhora pode, só a senhora pode... me ajude minha mãe, me de um sinal... eu não posso enterrar minha filha, eu preciso que ela viva..."


Meu bisavô nao era da religião
Mas ainda assim cutucou o ombro
Dela e apontou para a janela do carro 


👤— Cleuza olhe ali, aquilo não é gente de macumba? 


Ela olhou para fora 
E lá estava um pequeno grupo 
De pessoas vestindo roupas brancas,
Eles iam levando um balaio de pipocas,
Era um Sabajé.
Minha bisa gritou para o motorista parar
E desceu do carro correndo
Deixando meu bisavô para trás para 
Pagar o motorista.
Ela chegou esbaforida
Até aquelas pessoas e perguntou
Se eram de algum terreiro,
Elas a olharam torto, 
Tinha muito preconceito
Com candomblé na época
Então eram arredios em dar endereços,
Mas ela Mostrou o bebê que 
Trazia nos braços 
E depois mostrou as marcas de cura
Que tinha nos ombros
E contou que precisava da ajuda 
De mãe Oxum.
Aquelas Iyawos estavam passando ali
Por um acaso,
Havia uma comunidade de baianos
Do outro lado do bairro 
E elas so estavam pra aquele lado
Porque uma delas sentiu no coração 
De ir para la, para aquelas ruas de terra
Onde o povo as olhava feio
Como se elas fossem o próprio diabo.
Quando ouviram a história 
Que minha bisavó contou
Nem perguntaram muito mais,
Depois de ver a criança 
Entenderam que era tudo providencia 
Do Orixá.
Elas e meus bisavós saíram correndo
E dois quarteirões a frente
Entraram em uma vielinha,
Chegaram na porta do terreiro,
Uma casinha pequena sem nem reboco.
Quando chegaram chamaram
Pela mãe de Santo 
E logo uma mulher corpulenta
Com roupas de baiana
Apareceu na porta.
Minha bisavó rapidamente
Desatou a falar contando a historia,
Esperava receber da mãe de santo
Alguma palavra de auxílio
Ou pelo menos de conforto,
Porém imediatamente se calou
Quando a gritaria começou.
Vocês devem estar se perguntando
Que gritaria foi essa,
Mas o que acontece foi que
Todas as pessoas da casa incorporaram
Seus Orixás de uma só vez
E os Orixás gritaram seus "ilás",
Isso só acontece quando a 
Sacerdotisa lider d casa incorpora,
Os Orixás de seus filhos vem em respeito 
Ao Orixá dela, que é mais velho,
Então minha mãe ergueu a cabeça
E olhou para a mãe de Santo,
Ela estava ali com uma expressão 
Serena, os olhos fechados e 
Estendeu as mãos pedindo
Para segurar o bebê.
Nesse momento minha bisa 
Não conseguiu dizer
Nenhuma palavra compreensível,
Ao ver o fio de contas no pescoço 
Da mãe de santo ela soube 
Que Orixá era aquele,
A própria Oxum estava ali.
Minha bisavó foi tomada por
Uma emoção tão grande
Que apenas tentava falar 
Mas chorava demais para ser entendida.
Oxum deu um passo a frente 
E tomou os bebês nos braços,
Segurou com um e com o outro 
Abraçou a minha bisavó.
Coitada, estava tão abalada
Que apenas deixou Oxum a guiar
Para dentro da casa.
Uma outra mulher chegou apressada,
Era uma Ekeji, ela foi desvirando o povo
E depois foi ajudar Oxum.
A Orixá pediu para entrar 
No quarto dos assentamentos,
E quem é do santo sabe que esse 
Quarto é sagrado no terreiro,
Nao é aberto a qualquer um
Mas ainda assim 
Oxum mandou abrir o quarto 
E todo mundo Daquela casa
Entrou naquele pequeno cubículo,
Era pelo menos uma dúzia de pessoas e
Até meu bisavô que não fazia 
Idéia do que estava acontecendo 
Se enfiou lá.
Ali haviam prateleiras com 
Varios assentamentos 
Mas o maior era um de louça Branca,
O assentamento da própria Oxum.
Ela mexeu nas louças e tirou 
Uma tina que ficava sob elas,
Colocou no meio do quarto 
E então cochichou algo para a ekeji,
Logo a mulher voltou com uma moringa 
E encheu a tina de água.
Todas as pessoas observaram em silêncio,
Oxum se ajoelhou,
Desenrolou o bebe da manta
E o colocou dentro da água fria.
O bebê parecia morto,
Roxo e mole.
Oxum fez sinal para minha bisavó,
Levou uma mão a própria boca 
E minha bisa entendeu que ela dizia "cante".
Sim, quem é do santo sabe
Que o cantar é o mesmo que rezar.
Minha bisavó com voz embargada
Começou:


"Oro mi má, oro mi má ó, oro mi má ó abado o ieiê ô"


Sim eu sei que ela cantava errado,
O Yoruba estava torto, mas ela cantava 
Com toda a fé que tinha no peito.
O povo ali juntinho no quarto 
Começou a cantar junto
E logo como um coral eles
Entoavam esta e várias outras cantigas
De louvação a senhora das águas doces.
Oxum mantinha o bebé na água,
Com uma mão apoiava a cabecinha,
Com a outra ia molhando o corpinho
Com toda a delicadeza.
A cantoria continuou por algum tempo 
Até que foi interrompida por um som,
O choro do bebê.
Minha bisavó ficou tão emocionada
Que acabou tendo um desmaio,
Mas logo que se recobrou
Oxum entregou para ela a criança,
Um bebê firme, de olhos abertos 
E sedendo por leite.
Ela desabotoou a camisa 
E pôs o peito pra fora,
Na hora o bebê pegou e mamou.
Estava viva, a criança 
Estava viva e bem.
Oxum tirou um de seus colares 
Do pescoço e dando várias voltas
O colocou no pescocinho 
Do bebê, beijou aquela
Cabecinha frágil e então partiu.


Minha bisavó nomeou minha avó 
De "Conceição" para homenagear Oxum,
Ela na época achava que Oxum
Era o mesmo que Nossa Senhora da Conceição,
Sabe como é, coisas de gente antiga
Sem muita compreensão.
Mas uma coisa é certa, 
Oxum deu a vida a minha avó,
Ela nasceu realmente naquela 
Tina de água,
Nas mãos de Oxum.


Quando ficou adulta 
Vovó foi iniciada para Oyá Onira,
Era uma Iyansã belissima a dela,
Orixá que ela amava muito,
Mas sempre que perguntavam
De quem ela era filha ela dizia
"Sou de Oxum com Oyá"
Pois foi Oxum quem lhe deu
A graça de viver. 
Ela abriu casa e se tornou 
Iyalorixá, por toda a vida
Zelou pelo santo.
Em 2014 ela já era idosa
Quando foi diagnosticada com
Demência senil, que é quando 
O idoso começa a perder
A capacidade intelectual.
Por três anos lutamos atrás 
De uma cura
Mas essa condição é considerada
Algo natural, não é uma doença,
É simplesmente algo que pode acontecer.
No fim do ano de 2017
Os problemas mentais começaram 
A atingir o corpo em forma de síndromes,
Após tres AVC's e múltiplos 
Fatores recorrentes
Os médicos liberaram vovó 
Para passar seus últimos dias em casa.
Minha mãe não teve esse interesse
Em ser do santo
Mas eu sim, trilhei os caminhos de vovó 
E me tornei Iyalorixá, 
Aqui na mesma casa que foi dela,
Uma casinha pequena que alguns 
Até chamam de beco
Por ser humilde e por ainda
Ter alguns costumes referentes 
A crença de minha avó, dona Conceição.
Era Dezembro, época que eu toco 
A festa das Iyagbás,
E como sempre o pessoal do bairro veio,
E dessa vez vieram pessoas 
Que eu não conhecia, 
Um rapaz se destacava,
Um negro enorme, 
Lindo de olhos verdes.
No meio do Xirê ele recebeu seu Orixá
E para minha surpresa 
Aquele homenzarrão era
Filho de mãe Oxum.
Na hora que ele incorporou
Não se juntou aos outros Orixás na roda,
Não, ele simplesmente saiu do terreiro
Pela porta lateral.
Eu corri atrás, 
Pensei que Oxum estava procurando 
Um lugar para se trocar,
Me envergonho em dizer que até 
Suspeitei que o rapaz estava de ekê,
Mas não, Oxum simplesmente seguiu 
Para fora, atravessou o corredor 
Até chegar nos fundos 
Onde fica a minha casa
E ficou parada diante da porta 
Esperando que eu abrisse.
Eu estava achando estranho
E expliquei a Oxum que ali
Não era parte do terreiro,
Mas ela de modo impaciente 
Fez gestos para que eu abrisse logo
Aquela porta.
Assim eu fiz, abri e ela entrou,
Ali na sala de casa
Estava vovó sentada na cadeira de rodas
Vendo televisão com os olhos vidrados.
Sabe, vovó já não reconhecia a gente,
Era como se fosse uma casca vazia,
Mas quando Oxum se aproximou 
Ela ergueu a cabeça e sorriu, 
Com a voz fraquinha Disse "mãe..."
O rapaz era forte, com um único movimento 
Pegou minha avó no colo 
E caminhou de volta para o terreiro.
A Oxum dele dançou todo o rum 
Com vovó em seus braços,
A embalando como um bebê.
Foi uma alegria só,
Todo o povo a conhecia 
E lhe davam comprimentos,
Vovó estava tão bem 
Que até comeu o Ajeun conosco,
Oxum a sentou na cadeira 
De mãe de santo e ali vovó 
Riu e brincou,
Reconhecia cada pessoa de nossa
Comunidade como se nunca 
Houvesse ficado doente.
No fim da noite
Oxum levou vovó devolta para casa
E a colocou na cama,
Deu nela um abraço 
E depois partiu, então 
A Orixá deixou o corpo do rapaz.
Minha velha estava outra pessoa,
Estava lúcida e sorridente,
Conversou comigo como 
Nos tempos de outrora. 
A festa acabou, o povo se despediu
E eu e meus filhos colocamos 
O terreiro em ordem.
Passamos a madrugada na faxina,
Já estava amanhecendo quando
Eu voltei para casa
Para ver como estava vovó.
Ela estava com os olhos fechados
E uma expressão serena,
Havia falecido durante o sono.
Eu tenho muito orgulho 
De ser mãe de Santo como ela foi,
De reinar nessas paredes
E de saber que ali atrás 
No quarto dos assentamentos 
Tem até os dias de hoje
Dois Ibás gêmeos 
Um do lado do outro 
Montados da mesma maneira,
Do lado direto um de louça amarela 
E do esquerdo um de louça cor de rosa,
Os Orixás de minha avó.
É história de minha velha,
É a história de uma mulher 
Que amou e foi amada pelo divino.


Contos de Terreiro, dramatização: Felipe Caprini




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