2020 - Tenda de Umbanda Luz e Caridade - Tulca

22/11/2020

Orixás e Guias Homenageados no Ano 2020

É com alegria que a Tulca homenageia todos os Orixás, Guias e Mentores da nossa egrégora no ano 2020, em uma gira interna de luz e paz. Infelizmente ainda não podemos abrir para o público, devido ao risco de contágio, ainda existente, do novo corona vírus, mas continuamos firmes no nosso propósito de caridade, trabalhamos internamente e pedimos por todos que desejam estar na nossa Tenda e não podem, para que sejam atendidos em suas necessidades, com a permissão de Deus e o merecimento de cada um. Rogamos a luz dos Sagrados Orixás sobre o nosso Planeta, para que em breve possamos nos unir novamente. 

SALVE PAI OXALÁ, MÃE NANÃ, MÃE IANSÃ, PAI OMULU, PAI OGUM, MÃE OXUM, PAI XANGÔ, MÃE IEMANJÁ, PAI OXÓSSI!

SALVE TODOS OS CABOCLOS, PRETOS VELHOS, IBEJIS, MARINHEIROS, BOIADEIROS, POVO CIGANO, POVO DO ORIENTE, MESTRES JUREMEIROS, EXUS E POMBAS GIRAS!

SARAVÁ UMBANDA!

Tulca

Tulca1

Tulca2

Tulca3

Tulca4

Tulca5

Tulca6

Tulca7

Tulca8

Tulca9

Tulca10

Tulca11

Tulca12

Tulca13

Tulca14

Tulca15

Tulca16

Tulca17

Tulca18

Tulca19

Tulca20

Tulca21

Tulca22

Tulca23

Tulca24

Tulca25


Família Tulca em gira interna, em 21/11/20




Leia mais

17/11/2020

Visão Científica do Transe Mediúnico

Transe mediúnico

TRANSES RITUAIS BRASILEIROS E PERSPECTIVAS DE SUA APLICAÇÃO À PSIQUIATRIA E À MEDICINA PSICOSSOMÁTICA

David Akstein[1]

O Brazil-Médico: Revista Semanal de Medicina e Cirurgia (RJ), n. 3, Volume 80, maio/junho de 1966


Consideramos os transes rituais brasileiros, quando plenamente desenvolvidos pelos médiuns, como transes psicautônomos, isto é, transes que são induzidos e controlados por eles mesmos. Incluem-se entre os transes psicautônomos, os transes espíritas, os transes auto hipnóticos, os transes iogues, certos êxtases religiosos e artísticos. Evidentemente que certos êxtases religiosos devem ser considerados dentro da neurose histérica, principalmente aqueles acompanhados de estigmas.

Dentro deste estudo iremos considerar os transes rituais principalmente cinéticos, que são de origem africana, e que se manifestam sob uma forma mais ou menos controlada nas cerimônias da Umbanda, da Quimbanda e do Candomblé.

Devemos considerar duas principais resultantes benéficas destes transes: a primeira é a possível produção da hiper acuidade dos sentidos e a desinibição de capacidades latentes, e a segunda é a liberdade emocional de tensões represadas.

O termo psicautonomia, criado por Mongruel, significa o exercício do transe autodirigido. O referido autor brasileiro, observando durante muitos anos os transes da Umbanda, apresentou a possibilidade do aproveitamento prático das qualidades despertadas durante o transe; os bons resultados seriam obtidos mediante “a elaboração mental inconscientemente provocada”, sendo que “a educação da psicoautonomia tem por objeto despertar intelecto-afetivos, bons impulsos desde logo aproveitados na medida possível, no duplo sentido mental e moral, respeitados talentos ou vocações individuais”.

Afirma o mesmo autor que indivíduos acostumados a este tipo de transe poderiam reunir-se em grupos, para exercícios psicautônomos, em que “o aluno aprende a libertar-se de suas inibições, habituando-se a sondar em si mesmo ideias de que a princípio quase não se julgava capaz”. Além disso, com o mesmo ponto de vista que temos esposado há muitos anos, afirma o citado autor que as explosões emotivas que surgem nestes transes externam “causas de conflitos íntimos, depois do que resulta grande alivio aos pacientes”; gradativamente estas descargas vão decrescendo de intensidade e, por fim, surge o equilíbrio emocional e psicossomático dos pacientes.

Diz ele, que a psicautonomia é uma função psicossomática e, dessa maneira, devemos considerar nele grandes possibilidades dentro da medida psicossomática e da psiquiatria, cujos principais beneficiados seriam “os inadaptados a choques a choques e torturas da existência, sofredores pela emoção, os quais formam legião interminável”. A propósito disso, podemos nos referir ao que nos tem sido expresso por diversos médiuns umbandistas, além das inúmeras observações que temos feito. Assim, tem eles nos afirmado que seus transes são caracterizados por contrações tanto mais fortes quanto mais fortes tenham sido os desgostos, as frustações, o sentimento de inferioridade, o ódio ou outra emoção negativa por que tenham passado recentemente.

A Umbanda é a seita[2] mais importante dentre todas, sendo de 9 a 10 milhões o número de adeptos. Muitos são católicos, outros, protestantes, e há até certo número de israelitas. O “contágio cultural” é bem grande, envolvendo, mesmo, pessoas do mais alto nível social e cultural, independentemente de raça, cor e religião. Portanto, não são somente pessoas negras ou mestiças que seguem tais seitas espíritas. Menor importância tem o Candomblé, com ritual mais rico, mais ligado à tradições africanas, e mais cultivado na Bahia, enquanto a Umbanda é praticada em todo o Brasil. A Umbanda é considerada de “linha branca”, isto é, que faz o bem, enquanto a Quimbanda é de “linha negra”, ou magia negra, de feitiçaria, com o fito de fazer o mal, exercida por um regular grupo dos que seguem também a Umbanda. Existem também os chamados “centros espíritas de mesa” ou kardecistas, cujos transes característicos são estáticos, enquanto os transes umbandistas, quimbandistas e do Candomblé são em geral cinéticos.

Devido à sua maior importância deter-nos-emos no estudo da seita umbandista. Quanto às cerimônias, em si, devemos dizer que variam de lugar para lugar, de um centro espírita (“terreiro”) para outro. Mas, em síntese geral, adoram vários ídolos, sendo Oxalá o principal (Deus, Divino Mestre etc.). Os ídolos são de vários nomes, muitos oriundos da África, que os adeptos identificam com santos da Igreja Católica. Esta adaptação facilitou a preservação da crença, antes perseguida e proibida, oriunda de ancestrais africanos, antigos escravos.

Em um terreiro de Umbanda a sessão tem a seguinte sequência. Em um local amplo, coberto ou não, regularmente iluminado, durante a defumação com incensos, procedem-se aos hinos oficiais dos trabalhos. Após isto, ressoa no ambiente a música ritmada pelo som dos atabaques, acompanhada por quantos se encontram no terreiro. Os cantos são dirigidos pelo Ogan, uma espécie de mestre da música, ou são pelo próprio chefe do terreiro, chamado Babalaô.

A música tem um ritmo parecido com o do samba, sendo que em umas o ritmo é lento e em outras é bastante rápido. Em geral, é a música inicial que dá o condicionamento para o transe do chefe do centro espírita. O ambiente, o cheiro do incenso são outros elementos condicionantes para o transe. O transe se caracteriza inicialmente por contorções dos membros, do pescoço e do rosto, com caretas, seguindo-se, quase sempre, um pequeno salto acompanhado de um grito convulso ou estridente; o médium cai sobre seus pés, elevando, então, suas mãos em atitude messiânica ou patética. A partir daí, emitindo sons guturais ininteligíveis, relacionados ou não com o ritual, fumando cachimbo ou charuto, e batendo constantemente a mão direita no peito, inicia a dança ritual da Umbanda (Gira).

Cada música que se segue – sempre acompanhada das vozes dos restantes presentes – significa a convocação de uma determinada entidade espiritual, a qual se “incorpora” em uma médium, que estrebucha e se contorce... Hierarquicamente, vão-se produzindo os transes, do mais alto dignatário ao mais humilde dos médiuns. Enquanto isto, a música, em geral agradável, ritmada pelo bater dos atabaques, mantém a estimulação hipnógena. (Há centros espíritas que tem verdadeiras orquestras). Por fim, os iniciáticos, isto é, os médiuns que estão em “desenvolvimento”, entram em transe, mas unicamente por intermédio de manobras realizadas por outros médiuns incumbidos desta função. A música, nestes médiuns em desenvolvimento, ainda não tem o papel condicionador específico; ela, entretanto, facilita o transe pela intensificação do fenômeno da indução negativa (fenômeno que se dá, ao nível dos centros nervosos superiores, pela irradiação da inibição, a partir da periferia de um ponto de excitação).

Com a melhoria do desenvolvimento do médium, uma determinada música passa depois a ser o mais forte estímulo condicionador do transe. Em geral, essas músicas tem como tema a exaltação das virtudes e a convocação das “entidades espirituais”. Não queremos dizer com isto que todo o transe umbandista dependa principalmente de uma música condicionadora. Não. Há grande número de médiuns que seguem os rituais da Umbanda, da Quimbanda e do Candomblé, que tem o transe condicionado por outros estímulos; por exemplo, a autossugestão concentrada em uma prece, em ambiente absolutamente silencioso, pode também condicionar o transe; inúmeros outros estímulos podem dar início ao transe, contudo a música, mediante a mais fácil produção da indução negativa, é um dos mais eficientes estímulos propulsores e aprofundadores do transe.

Durante as cerimônias, às vezes, dentre os assistentes, que não tomam parte ativa nas mesmas, destacam-se indivíduos sensíveis, que entram espontaneamente e são incorporados ao grupo de médiuns que estão em função no meio do terreiro. Outros assistentes apresentam-se para tomar os passes e, então, por meio destes, também em transe. A música passa cada vez mais a envolver os presentes e um delírio místico comanda a todos. É o ambiente propício aos delírios, às ilusões, às alucinações, enfim, aos milagres.

Os médiuns “recebem” o espírito dos “pretos velhos”, isto é, dos antigos escravos, ou espíritos de chefes indígenas.

Os assistentes acompanham os cânticos, enquanto se processa a gira da Umbanda, que é a dança que os médiuns executam. Cada médium em transe tem uma maneira própria de fazer a gira da Umbanda, o que mostra ser de diferentes características a personalidade de cada um. A dança, a música, o ambiente predispõem o médium a um transe cada vez mais profundo. a música ritmada, pelos tambores e outros instrumentos, monótona, persistente, mas que tudo, mantém as condições de hipnogenia da sessão.

Como já dissemos, a personalidade de cada um dos médiuns imprime uma característica própria aos seus transe, e as cerimônias de todos os tipos são também influenciadas pelo meio cultural, tornando-se mais requintada conforme o meio seja mais culto.

Em uma grande parte destes centros espíritas, depois das danças, os médiuns extenuados (há cerimônias que demoram mais de quatro horas ou toda a noite) sentam-se em pequenos bancos espalhados por vários cantos do salão, onde passam a dar consultas a infelizes e ignorantes criaturas. Dessa forma, o curandeirismo e o exercício ilegal da Medicina são francamente exercidos, o que constitui o aspecto mais negativo de tais sessões. Alguns centros espíritas, cujos chefes são mais argutos e perspicazes fazem “tratamentos” exclusivamente por meio de passes; outros, sem temer a lei, fazem sessões em dias apropriados, sem danças, quando então dão conselhos e receitas aos doentes.

Devemos esclarecer que muitos dos “médiuns inconscientes” (que tem amnésia pós-transe), não compreendendo a verdadeira natureza do transe mediúnico e julgando-se possuídos por uma entidade espiritual, honestamente passam a dar conselhos, julgando-se, mesmo, até no dever de assim proceder, principalmente quando a entidade “incorporada” é o “espírito de um médico”.

Mesmo no caso de médiuns que não apresentam contrações ou convulsões, ou que não atingem uma boa profundidade no transe, ou ainda no caso de indivíduos que não conseguem entrar em pleno transe, mesmo assim, durante a dança ritual da Umbanda, a movimentação cadenciada, o monoideísmo místico, religioso e a música bem ritmada produzem um estado de inibição parcial do córtex cerebral, já propiciando, por indução reciproca do subcórtex, certa liberação de tensões emocionais represadas.

Não é somente nos transes cinéticos, como é comumente o das referidas seitas espíritas brasileiras, como é o do Vodu (do Haiti), e o de certas tribos africanas e esquimós, que se produz uma benéfica liberação nervosa subcortical; mesmo no caso de transes estáticos, que também podem ocorrer em sessões espíritas umbandistas (e, principalmente, nas chamadas “sessões espíritas de mesa” ou kardecistas), o médium se libera emocionalmente; sente-se leve, abstraído do seu mundo vulgar, transportado por seu êxtase às elevadíssimas regiões dos sonhos místicos ou da magia.

Seja em transe estático ou cinético, o médium se sente uma entidade poderosa, o seu “cavalo” é receptor de um espírito sábio e luminoso; sente-se então com força superior para vencer fácil as situações da sua corriqueira vida diária. Tal sentimento do poderio sobre o bem e sobre o mal lhe dá extraordinária satisfação, compensando bastante as frustações de sua vida sem atrativos. Sente bastante prazer de dar passes e conselhos, principalmente a pessoas de maior nível social e cultural, as quais comumente procuram esses centros espíritas.

As pressões sociais impedem comumente o surgimento de verdadeiros gênios nas artes, na política e em outras atividades; qualidades excepcionais, no estado de transe psicautônomo, podem ser desinibidas. Toda uma estereotipia dinâmica estratificada pode ser liberada no transe, exteriorizando uma conduta organizada no passado, real ou imaginária, porém, em geral desejada. Assim, por exemplo, um indivíduo na mocidade desejou ser poeta, chegando a fazer pequenos ensaios, porém tornou-se inibido pelas circunstâncias sociais. Entretanto, toda uma estereotipia dinâmica relacionada com essa qualidade pode ser estruturada na sua atividade nervosa superior, ficando porém reprimida e, por fim, estratificada.

Anos mais tarde, durante o transe, tal estereotipia pode emergir seja através de uma total dissociação da personalidade do médium, seja através somente da escrita automática ou da fala automática. Com respeito à dissociação total da personalidade, temos visto indivíduos em transe apresentaram uma personalidade extraordinária, com uma brilhante execução do seu papel. Mais de uma personalidade o bom médium pode apresentar, com características bem distintas em cada uma delas.

Fenômenos extraordinários podem apresentar certos médiuns umbandistas. Por exemplo, certos médiuns conseguem facilmente entender a chamada linguagem muscular: tocando na musculatura dos braços e das mãos do consulente ou simplesmente vendo a movimentação e, mesmo, as mais levíssimas contrações musculares, principalmente do rosto, os médiuns poderão saber, bem como as reações que provocam suas palavras. Mediante a autossugestão, por exemplo, certos médiuns podem beber uma quantidade enorme de bebida alcóolica e não sentir os seus efeitos tóxicos. Também, por meio da autossugestão, determinados médiuns podem pisar (rapidamente) sobre brasas sem se queimarem e sem se sangrarem (inibição da sensibilidade dolorosa e espasmo dos pequenos vasos das plantas dos pés).

Todavia, o que visamos apresentar aqui não são essas quase fantásticas façanhas, mas sim a possibilidade do aproveitamento na vida diária de certas qualidades que surgem durante o transe, assim como as perspectivas do tratamento de neuroses e de variadas condições psicossomáticas mediante a liberação emocional produzida pelo transe em si, principalmente cinético. Assim, um médium pode ser levado a um aprimoramento de funções pelo equilíbrio neuromuscular, pela hiper acuidade dos sentidos. Dessa forma, artistas de pincel, da escultura, do desenho, da dança e outros poderão apresentar um trabalho mais perfeito, como antes não haviam podido conseguir.

Indivíduos acostumados ao transe espírita poderão ser devidamente orientados dentro do mesmo, para determinadas funções da vida diária, em que se exige grande acuidade visual, auditiva, táctil, de memória, de cálculo etc. dessa forma, em determinados momentos poderão entrar em transe e executar um trabalho altamente especializado, dentro da sua profissão, por profissão, por exemplo, em que se necessitem aquelas qualidades.

O transe espírita umbandista, mais que outros, promove, por si só, uma intensa e benéfica liberação emocional. Esses transes rituais devem ser compreendidos como manifestações dentro de um quadro cultural sociológico e também econômico. Como o temos feito, L. Mars, citado por Ajuriaguerra, faz clara distinção entre a possessão neurótica e a possessão ritual integrada em uma religião animista. Tendo estudado as cerimônias do culto Vodu, afirma aquele autor (Congrès des Alienistes, Marselha, 1948) que a crença religiosa pode colorir o aspecto clínico da doença mental, mas, com justa razão, diz que não se pode confundir ritual religioso com ritual neurótico.

As observações feitas pelo mesmo autor confirmam as nossas com respeito a indivíduos que, de repente, ficam privados de tabus e dos ritos (por exemplo, deixando de frequentar o centro espírita e deixando de praticar o transe ritual, isso é, os sintomas neuróticos vem neles tomar o lugar da instituição cultural). Temos notado, porém, que sempre que esses indivíduos retornaram à prática ritual do seu credo, voltam a apresentar um bom equilíbrio nervoso. Lévi-Strauss, citado por Ajuriaguerra, igualmente afirma que as danças ou as cerimônias de possessão são fatores de equilíbrio, enquanto que Eskowitch, também citado pelo mesmo autor, já há uns vinte anos negava a interpretação da natureza histérica da possessão ritual, assinalando o aspecto controlado e estilizado do fenômeno: “o número de pessoas sujeitas à possessão é demasiado grande para que elas recebam a etiqueta de histéricas, a não ser que consideremos toda a população haitiana como vítima de distúrbios mentais”.

Sabemos que algumas vezes o transe umbandista evolui com certa violência, até com certo descontrole, mas o chefe do terreiro, mediante manobras e palavras, acalma e enquadra dentro do ritual o médium “tomado” por um “espírito perturbado”.

Entre as possessões rituais autênticas, incluem-se certas possessões que podem ser consideradas simuladas deliberadamente, seja para servir ao espetáculo ritual ou seja para exercer sobre os outros um cero domínio, de que tirará benefícios. Muitos indivíduos foram bons médiuns, mas, envelhecidos, o seu transe se torna superficial ou inexistente e, então, passam a simular, pois desejam manter sobre si o mesmo respeito dos crentes e continuar a usufruir os benefícios morais e materiais decorrentes da sua condição de médium. Em geral, temos observado que é entre os chamados médiuns conscientes que se encontram aqueles que mais comumente simulam.

Estamos de acordo com Ajuriaguerra, quando afirma que o exibicionismo tem papel importante nos fenômenos de possessão. De fato, o indivíduo tem prazer de ser o centro de atenção quando no estado de transe. A sessão umbandista toma comumente o aspecto de uma cena de teatro; temos visto sessões, que, pela sequência e harmonia dos ritos, pelos cânticos, pelas vestimentas e danças constituem uma exibição na mais bela montagem teatral.

Nossos pontos de vista, esposados há muitos anos, são também coincidentes com os do último autor citado, isto é, de que o médium libera, sob uma forma controlada pelo ritual, de uma maneira “amaciada”, as suas tensões emocionais represadas, dando-lhe, após, um bom equilíbrio nervoso. Diz ele que “os fenômenos de possessão, tais como o Vodu, são uma teatro-terapia de tipo psicodramático controlado por um ritual que tem um valor de proteção contra aos inconvenientes da difusão perigosa de um inconsciente em liberdade”.

O transe cinético, da Umbanda, da Quimbanda e do Candomblé, por si só constitui, como já dissemos, uma maneira benéfica de liberação dos estados tensionais, beneficiando ou propiciando a cura de inúmeras condições psiconeuróticas e psicossomáticas. É uma opinião que temos defendido, após incontáveis dos indivíduos que a eles se submetem. Depois de algum tempo de prática desses transes, tais indivíduos encontram neles um refúgio para as suas aflições cotidianas, para a sua mediocridade, uma compensação para as suas frustrações. Essas sessões atuam, também, como um moderador das inquietudes das classes mais pobres, que a elas frequentam; os crentes encontram resposta, pela boca dos médiuns, dos seus mais dolorosos problemas; descarregavam seus problemas, evaporam-se de suas tensões; a música monótona, ritmada, agradável, age como catalisadora da inibição hipnogênica que se apresenta numa boa parte desses assistentes.

Com respeito aos médiuns, logo no início do transe há uma inibição cortical que se difunde em torno da área de vigilância, que, por indução positiva do subcórtex, libera certas tendências e reações primitivas caracterizadas por seu forte tom emocional. A liberação emocional (origem subcortical) provoca, por sua vez, indução negativa do córtex cerebral, determinando uma maior difusão da inibição em torno da zona de vigilância.

No transe cinético, como é o umbandista, o córtex motor é desinibido em grande parte (inclusive a área concernente ao aparelho fonador) e funciona como porta de escape daqueles elementos emocionais emergidos da subcorticalidade. Este escape é feito de maneira não muito violenta, “canalizado num bom caminho, “amaciado”, compatível com o meio social ambiente, enquadrado no ritual. A música mantém as condições de hipnogênia da sessão e estimula, por indução recíproca, aquela liberação emocional: ela, mais que tudo, permite que aquelas energias represadas se despreguem dos profundos rincões da vida nervosa, dando ao indivíduo, após o transe, uma grande tranquilização e profundo bem estar. A referida liberação emocional é benéfica para a vida psíquica e vegetativa do indivíduo, o que se explica pelas íntimas correlações funcionais e anatômicas entre os centros neurovegetativos e os centros responsáveis pela emoção.

As convulsões do transe umbandista, acompanhadas de caretas e emissão de sons guturais e às vezes estridentes, correspondem à liberação atenuada de represadas emoções e de certos instintos baixos. E como se fora uma forma de doença atenuada, uma espécie de vacinação. Assim, pode-se atestar isto observando-se certos indivíduos, com problemas psíquicos, que se iniciam na prática do transe, os quais apresentam contrações violentas que se vão atenuando com o continuar das sessões, até um certo ponto, obtendo por fim um bom estado mental. Além da liberação emocional por essa via, acontece que o médium se acha imbuído da ideia de possessão de um poder mágico, o qual lhe produz compensações emocionais que o ajudam a superar todas as suas anteriores emoções negativas.

Durante o nosso carnaval temos observado verdadeiros estados de transe durante as danças, o que é propiciado pelo ritmo das músicas pela longa duração das mesmas e pelo contágio emocional. Com justa razão é chamada de folia carnavalesca a grande festa brasileira. Ela, também, segundo observamos, é meio de liberação emocional e favorecedora do equilíbrio nervoso.

O emprego do transe tipo umbandista, retirados dele os elementos místicos e religiosos, parece-nos acenar com extraordinárias perspectivas dentro da psiquiatria e da medicina psicossomática. (A suposição de que os centros espíritas provoquem doenças mentais é falsa; o que acontece é que grande número de psicóticos que povoam os hospitais especializados à procura da cura, o que dá motivo àquela falsa suposição). Entretanto, não é fácil retirar do transe umbandista tais elementos místicos-religiosos, pois que é exatamente a concentração na fé religiosa que proporciona uma boa indução e uma melhor profundidade do transe.

Daí, porque, o ideal será iniciarmos o tratamento com indivíduos não acostumados ao transe umbandista, quimbandista ou no Candomblé, ou ainda melhor, com indivíduos não espíritas. Tratando-se de crente destas seitas, a maneira mais adequada de proceder será transformar aquele impulso concentrativo místico-religioso em uma possante concentração no desejo de um aperfeiçoamento das mais desejadas qualidades, o que, porém, como já dissemos, não é fácil. O transe umbandista é um transe análogo ao da hipnose e, se exercido regularmente uma a três vezes por semana, sem os elementos místicos e religiosos, poderá se constituir em importante medida não só terapêutica, mas também profilática. Poderá ser exercido, por adultos, adolescentes e até crianças à partir dos dez anos de idade (delinquência infantil e juvenil, por exemplo).

E não haver motivo para preconceitos contra isto, pois o exercício do transe é tão antigo que se perde na poeira dos tempos. Seria, assim, uma volta a uma das mais primitivas culturas do homem, um reencontro com a sua autenticidade. Grupos de indivíduos poderão executar o transe do tipo umbandista, com boa orientação preestabelecida, visando uma finalidade elevada (por exemplo, aa paz entre os homens) ou as mais belas virtudes do homem (substituindo, assim, a concentração místico-religiosa). A música característica da Umbanda deve continuar a ser empregada, visto ser de alta qualidade hipnógena; somente as letras dever ser mudadas, isto é, devem passar a abordar os temas relacionados com as finalidades ou virtudes desejadas.

A liberação das tensões represadas tornará o indivíduo mais bem propenso ao bom convívio social e familiar, mais ajustado, mais equilibrado emocional e psicossomaticamente. A liberação emocional, que então se produz através da exaltação motora da dança e das contrações, é bem diferente da liberação produzida por um indivíduo em condições emocionais negativas, na vida normal diária, em que a “explosão” emocional pode trazer as piores consequências para ele e para a coletividade.

A melhor maneira de proceder à indução deste tipo de transe é obedecer, em linhas gerais, à técnica empregada por muitos chefes de terreiro espírita em crentes que desejavam iniciar-se como médiuns. Assim, enquanto soa a música, melhor se acompanhada de cânticos, o indutor do transe abraça a cabeça do indivíduo com o braço direito ou o esquerdo, ou, se quiser induzir duas pessoas ao mesmo tempo, abraça a cabeça de um indivíduo em cada braço. A mão deve espalmar a testa do indivíduo, que fica voltado para a mesma direção a que está voltado o indutor, ao lado deste, sendo que sua cabeça fica um pouco voltada para baixo, envolvida pelo braço do indutor e colada ao tronco dele. Este, imprimindo um movimento circular ao corpo, isso é, rodopiando, e seguindo por passos o ritmo da música, leva consigo o indivíduo ao mesmo movimento.

A ação da posição antinatural do individuo em movimento sobre os centros do equilíbrio (ação supra maximal) induz uma excitação subcortical, que é aumentada pela emoção (devido à tensão expectante e à música, principalmente); produz-se indução negativa do subcórtex sobre o córtex cerebral, e a inibição cortical se difunde em torno da área de vigilância; o ritmo persistente da música, mantido pelo som dos tambores e outros instrumentos, ajuda a difundir a manter a referida inibição. O transe instala-se, e o indivíduo seguirá a conduta conforme um modelo que lhe tenha sido dado antes.

Por isso, é interessante que o indivíduo candidato à iniciação do transe veja antes um outro indivíduo em transe. Se lhe for induzido o transe ao mesmo tempo que outro indivíduo já acostumado, então o contágio emocional atuará como facilitante.

Depois de alguns treinos, o indivíduo, já ao se situar no ambiente, com todos os estímulos presentes, inclusive musical, ele mesmo, terá capacidade de, por si só, autoinduzir o transe.


Referências

AJURIAGUERRA, J. Les Problémes du Normal et du Pathologique em Psyquiatrie à Partir des Apports Psychosociologiques. Separata da conferência pronunciada em 28 de maio de 1962, em Bâle, Suíça, sob os auspícios de F. Hoffmann. La Roche & Cie. S.A.

AKSTEIN, D. e CARNEIRO, J. P. A Fenomenologia Hipnótica à Luz da Reflexologia. Atual, Med. e Biol., no 16, 27-35, 1957.

AKSTEIN, D. Psicofisiologia da Indução da Hipnose. Primeiro Congresso Pan-Americano de Hipnologia e Primeiro Congresso Brasileira de Hipnologia. Rio de Janeiro, julho, 1961.

__________. Aplicação Prática dos Estados de Transe Psicautônomos. Segunda Reunião da Sociedade Internacional de Hipnose Clínica e Experimental. Rio de Janeiro, julho, 1961.

ELLENBERGER, H. F. Aspectos Culturales de las Enfermedades Mentales. Actas Luso-Espanholas de Neurologia y Psiquiatria, XVII: 306-315, 1958.

MONGRUEL, J. L. O Transe de Personificaçação Verbal e a Hipótese da Psicautonomia. Anais do Primeiro Congresso Interamericano de Medicina. Rio de Janeiro, 7-15 de setembro de 1946.

SVORAD, D. Paroxyzmátic Últm. Vydavalelstvo Slovnskej Akadémie Vied. Bratislava, 1956.

[1] David Akstein foi o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose, no Rio de Janeiro, fundada em 1957 (Nota de Diamantino F. Trindade).

[2] Naquela época muitos ainda consideravam a Umbanda como seita e não como religião (Nota de Diamantino F. Trindade).

Artigo compartilhado do facebook de Diamantino Trindade



NOTA DE EDNAY MELO: O artigo sugere retirar o aspecto religioso do transe mediúnico para torná-lo instrumento terapêutico no tratamento de doenças mentais e neuroses. Os autores compreendem a dificuldade de dissociação, visto que a fé é fator determinante para o desenvolvimento do transe. Porém, as conclusões de que os transes são "psicautônomos", ou seja, induzidos e controlados pelos próprios médiuns, de que são teatrais e produzidos apenas por estímulos ambientais e por auto-sugestão não considerando, em nenhum momento, a atuação mediúnica, ou seja, a atuação do intercâmbio espiritual (espírito-médium), fere a convicção religiosa adquirida desde os primórdios da humanidade. Como psicóloga e sacerdotisa de Umbanda, considero que o processo de catarse de emoções negativas durante o transe favorece sim o equilíbrio emocional do indivíduo, associado a todos os estímulos que uma gira de umbanda fornece, mas que tudo só é possível diante de uma inteligência oculta, espiritual, que trabalha com um direcionamento sistematizado e disciplinado para favorecer todos os presentes na gira de umbanda. Um exemplo da presença espiritual, a nível de experiência em terreiro é o fato do médium absorver, em um determinado momento da gira, uma informação ou comando do sacerdote por pensamento, mente a mente, sem que o sacerdote esboce nenhuma indução sugestionável. Salientando também que os erros observados em transes mediúnicos, sejam autênticos ou dissimulados, são de responsabilidade apenas do indivíduo, que é parte ativa do processo. Apesar do artigo datar de 1966, até os dias atuais a ciência retoma esses conceitos, que por hora, sinto-me no dever de reagir em prol da Religião de Umbanda.





Leia mais

04/11/2020

Os Médiuns Iniciantes e a Insegurança

Os Médiuns Iniciantes e a Insegurança

Infelizmente, são muitos os que interrompem o desenvolvimento mediúnico devido a enorme quantidade de dúvidas e insegurança. O início da vida mediúnica do neófito é, habitualmente, muito difícil. O medo, a hesitação, a confusão e ansiedade o perturbam. E não são poucos os momentos em que ele pensa em simplesmente desistir de tudo.

Por esta razão, é muito importante que os dirigentes estejam preparados para lidar com a insegurança mediúnica. Não é um sentimento à toa, mas um assunto muito sério. A boa continuidade da Umbanda depende de uma boa formação dos médiuns iniciantes. Eles precisam de acolhimento e muita orientação.

Médium iniciante, entenda que não há problema nenhum em errar, no momento. É por isso que você está em desenvolvimento. Para aprender e lapidar suas capacidades mediúnicas.

O desenvolvimento acontece de forma natural. Deixe o tempo amadurecer suas percepções. Não há motivo para pressa, o caminho é longo. Mesmo quando você começar a participar do atendimento, você continuará em desenvolvimento. Na hora certa, a espiritualidade traz o que for preciso para você.

Para combater o medo, busque o conhecimento. E atualmente, mais do que nunca, a informação está disponível. Existem tantos livros, blogs, grupos, canais, sites, cursos falando sobre Umbanda e espiritualidade. Tudo isso vai enriquecer a sua visão e trazer luz para algumas dúvidas e inseguranças. Sempre com cuidado para filtrar as informações que, de fato, possam te enriquecer e não te confundir. Mais do que isso, busque aproximar-se dos dirigentes e mais velhos de sua casa. Escute-os, eles têm muito a lhe ensinar.

Saiba, entretanto, que você não precisa entender tudo. Para muitas perguntas, não haverá respostas. É preciso ter fé nos guias. A espiritualidade é sábia e sabe o que faz. Deixe que ela conduza a sua caminhada no grande universo da mediunidade. Entregue-se aos guias e Orixás.

É normal sentir-se perdido no início da caminhada. Para muitos, o compromisso com o desenvolvimento mediúnico acontece num momento em que a vida encontra-se em desequilíbrio e crise. Uma verdadeira turbulência. Como uma tempestade que passou e deixou tudo de cabeça para baixo. Como se a vida insistisse: é hora de fazer algumas mudanças.

O desenvolvimento mediúnico mexe com as nossas energias mais profundas. Faz uma verdadeira faxina emocional. Muita coisa que você mantém escondida há muito tempo passa a se manifestar. Não há mais para onde fugir. É preciso forjar um novo eu. Abandonar os velhos hábitos que somente nos atrasam e viver de acordo com os valores que a espiritualidade nos ensina. E este processo pode ser muito difícil.

O que podemos dizer é que com o tempo vai ficando mais fácil. As dúvidas vão embora. E você passa a sentir segurança nos seus guias e na sua mediunidade. Mas para isto, você não pode desistir. Deve persistir apesar de toda insegurança que sentir. Lembre-se de que você não está sozinho.

O desenvolvimento aprofunda a sintonia entre você e as entidades que te acompanham. Trabalha no sentido de apurar sua capacidade, perceber os níveis mais sutis da realidade. E, simultaneamente, condiciona-te a aprender a confiar sua matéria ao guia.

Mas para isto, não podemos esquecer a velha lição: reforma íntima. Para receber com mais qualidade as energias elevadas dos guias e Orixás, é preciso elevar nossa própria vibração também. E isto é feito buscando uma conduta correta, vivendo verdadeiramente a humildade, a simplicidade, o amor e a caridade.

Não fique preocupado com o que os outros vão pensar de sua incorporação. Você não está ali para agradar ninguém. A mediunidade é uma relação íntima e pessoal com seus guias. Não adianta ficar se comparando. Cada um possui seu processo particular. Se alguém pode lhe dizer alguma coisa é seu sacerdote, e assim ele fará se for necessário. Do contrário, apenas ignore o olhar das outras pessoas.

Não fique se torturando, questionando-se se é você ou o seu guia. Os dois estão presentes. Você apenas permite a entidade tomar a frente, confiar nela. Não espere que você simplesmente terá um apagão e ficar inconsciente como uma espécie de prova de que está realmente ocorrendo a incorporação. Não é assim que funciona. A consciência na incorporação tem seus benefícios. Apenas deixa fluir o que sentir.

Não se apegue a sinais exteriores. Você não precisa tremer, suar, gritar, entortar para confirmar que a entidade está ali. Mantenha os pés no chão. A espiritualidade é invisível aos olhos, mas sentida no coração. O objetivo não é a autoafirmação, mas o exercício da caridade a todos que procuram.

Autoria desconhecida





Leia mais

28/10/2020

A Mediunidade Consciente

Mediunidade Consciente

A mediunidade desta época, a que está sendo mais aflorada, é a semiconsciente. Isso ocorre a fim de que o veículo utilizado pela entidade não passe em brancas nuvens aquela experiência única daquela incorporação específica, sem dela retirar proveitos práticos para sua evolução pessoal. O médium ouve a Entidade e o consulente, mas não deve interferir. Ouve, como um acadêmico de medicina em fase de estágio, onde o professor/médico e o seu paciente mantêm diálogo aberto sobre os problemas enfrentados, as soluções possíveis, o caminho mais adequado à cura; cabendo-lhe tão somente realizar suas anotações e aprender para a sua vida pessoal a indicação mais certa para não cair (ele mesmo, o aluno) naquela enfermidade e, estando acometido de mal semelhante, receber luzes para encontrar o caminho mais promissor à sua própria libertação.

Como um sacerdote, canal da comunicação divina aos homens, ouve o confidente e silencia para, em prece, interceder para que a luz atinja aquele ser que se debate em seus conflitos íntimos e o restaure.
Essa forma específica de mediunidade constitui, também, uma grande prova e motivo de valiosa expiação quando bem vivida, pois diversos fatores acercam-se do filho, aparelho para os imortais:

1º) A Confiança – O médium enfrenta o dilema de confiar sem ver com os olhos da carne. Aqui ele é lapidado para “acreditar”, independente da substância, da forma, das cores, para além da matéria densa;

2º) A Entrega – O processo de harmonização entre a entidade e o médium; é momento de ajuste, onde os fios tênues de amor de um e do outro se conectam, dissipando as arestas que impedem tal comunicação. Quanto maior a entrega do médium, mais rápido a entidade encontra canais para essa união; mais intenso e tranquilo o ajuste ou justaposição dos corpos da entidade e do médium;

3º) A Vitória sobre a resistência – É comum aos encarnados o cultivo dos seus diversos “achismos”, de suas ideias pré-concebidas, de seus interesses pessoais, de suas doenças invisíveis. Tudo isso precisa ser purificado para que o médium mergulhe nas certezas de quem veio trabalhar;

4º) A Disciplina – Ao médium é ofertada a oportunidade do rompimento com as “facilidades” de um tempo provisório e consigo mesmo, quando da retirada dos escombros que não lhe pertencem, mas que teimam em se instalar em seu coração. A estrada é a da evolução, da disciplina e da coragem;

5º) A Lapidação – Ser canal da Luz Divina é trabalho sério. Daí a necessidade da limpeza diária dos canais dessa luz – audição, aparelho fonador, visão, órgãos sinestésicos, mente, etc., afim de que as mensagens recebidas fiquem livres das filigranas da “temporalidade” e o trabalho realizado surta o efeito necessário sem acumular energias outras que venham produzir mais desequilíbrios. Lapidar é um verbo de presença efetiva no dia-a-dia daquele que se dispõe a esse serviço;

6º) O Abandono da timidez e do “amor próprio” doentio – Cabe aos que abraçaram esse trajeto se despirem de si e deixarem cada entidade trabalhar do seu jeito, sem a preocupação com o que os outros dele pensarão, pois as entidades que militam na seara da Luz sempre vêm com um propósito, com uma moral elevada, com atitudes que exalam o infinito do amor;

7º) A Libertação da vaidade - O médium deve estar vigilante para não “dramatizar” as sessões ou giras; não é aconselhável nem justo “se fazer passar pela Entidade”, a fim de que esta não o deixe ao sabor de suas próprias temeridades.

O médium, independente de seu grau de entrega, é canal de bênçãos. Ele, em si mesmo, não é a bênção! É antes canal e manifestação dela na vida dos que estão na mortalidade. Daí a sua responsabilidade. Daí a necessidade da sua vigilância e coerência pessoal. Daí precisar estar em intimidade com os seus Guias, com a Luz e a Verdade do Cristo, em evolução perene.

Francimary Figueiredo



Leia mais

07/10/2020

Guia Chefe



A mediunidade serve para que possamos crescer e ajudar outros a crescerem também, porque nos permite aliviar, através de nossa intermediação, (comunicações com os espíritos) as dores daqueles que nos procuram nas casas espíritas. A umbanda trabalha para caridade a fim de auxiliar a evolução espiritual própria e de outrem. A mediunidade deve se desenvolver adequadamente a fim de que nos tornemos aparelhos mais capazes para que os espíritos, na umbanda denominados de entidades ou guias espirituais, possam praticar os seus trabalhos espirituais.

Há diversas maneiras de se entender o tipo e a condição de trabalho da mediunidade e, consequentemente, do médium. Tais maneiras dependem sobremaneira da doutrina aplicada, no entanto, é fato que, por mais capacitado e mais estudado que seja o médium, ele sempre será um intermediário. A essência do trabalho caberá sempre ao espírito, à Entidade, ao Guia.

E uma das perguntas comuns recebidas é COMO SABER MEU GUIA CHEFE?

Cada médium tem sempre um espírito que é líder em seus trabalhos.

Que se apresenta mais e que responde mais vezes quando solicitado pelo médium. Todas as falanges de trabalhadores ligadas àquele médium estão “subordinadas” a ele. Este é o chamado “guia chefe”, “guia de frente” ou “chefe de cabeça”.

Em geral, é um caboclo ou preto velho, mas pode também pertencer a outras linhas em casos específicos.

O Próprio guia de frente deverá se apresentar. É um erro comum tentar prever isso em algum momento, ou o médium ou zelador tentar “forçar” que seja esta ou aquela entidade, por questões de afinidade.

Percorrendo nossa caminhada espiritual enquanto médiuns iremos nos encontrar com vários espíritos trabalhadores que influenciarão muito em nossas vidas. Todos os guias em que vibramos, incorporamos e/ou conhecemos são com certezas muito importantes pra nós, mas quase todos os médiuns em iniciação ou desenvolvimento buscam encontrar o que seria o guia chefe ou o mentor, que nos acompanha desde o dia de nosso nascimento e o espírito que nos acolherá em nosso desenlace.

Mas o que seria um GUIA CHEFE? Todos nós nascemos completos e viemos a Terra com missão pré-determinada pela espiritualidade superior. Somos escolhidos por nossos ORIXÁS (pai e mãe de cabeça e Orixá ancestral).

Nossos ORIXÁS são força vital que mora em nossa essência e em nossa genética espiritual está presente em todas as nossas encarnações. Somos energia em movimento. Somos a água das senhoras Yemanjá, Oxum, Nanã ou somos o fogo de Xangô, ou a força dos ventos e tempestades de Oya, ou o firmamento de Oxalá e essa força reside em nós influenciando nossa personalidade, nossas características físicas, etc...

Nossos guias chefes são espíritos que, ao contrário de nossos orixás, já foram seres encarnados, viveram nesse plano de existência, para a partir das experiências obtidas em suas passagens terrenas por evolução espiritual ocupam hoje a posição de mestres ou mentores. Esses mestres ou mentores esgotaram suas necessidades de encarnação e hoje divinizados tem missão maior. Dirigem a espiritualidade dos encarnados que escolheram para guiar. Nossos guias chefes podem ser caboclos ( de couro e de pena) , pretos e pretas velhas, e em alguns casos inclusive ibejis (crianças do astral). O que determina a possibilidade de um espirito se tornar um GUIA CHEFE é a filiação desse espirito a uma falange de trabalho espiritual, alcançar a evolução necessária e receber da espiritualidade a missão de conduzir um médium. Essa condução começa na Infância e acontece através de sonhos e não é incomum que o médium lembre de instruções ou intuições passadas pelos seus mentores enquanto criança.

Chico Xavier fala da missão de nossos mentores/guias chefes: “O mentor é um espírito que se comprometeu com o trabalho espiritual do médium, dedicando parte do seu tempo para preparar o médium para sua tarefa, trabalhar ao seu lado e fazer o possível para protegê-lo do contato com as energias degradantes do astral inferior.”

Em algumas casas, os médiuns trabalham somente com os guias chefes. Mas é perfeitamente possível que um médium trabalhe com entidades de todas as falanges.

Como conhecemos nosso GUIA CHEFE? Isso vai depender da sua casa Umbandista. O mentor já interage em nossa vida espiritual como explicado anteriormente, mas é no processo de desenvolvimento mediúnico que vão surgindo as primeiras manifestações desse guia que por serem ou muito intensas, ou muito brandas destoam totalmente das manifestações dos outros guias. Nessa fase eles se comportam de forma diferenciada, cuidando muito mais de sintonizar a energia do médium. No momento apropriado esse médium irá passar por rituais internos que preparam o físico, o mental e o espiritual para esse primeiro contato pleno onde o GUIA CHEFE traz seu nome , seu ponto riscado e cantado para a partir desse momento ser reconhecido pelo médium e por todos como o responsável junto com os ORIXÁS e a egrégora da casa escolhida pelo médium para conduzir sua caminhada espiritual.

A maioria dos médiuns gosta mais de trabalhar com seu guia chefe, devido a essa afinidade. Isso é muito comum. Errado é impedir que outras entidades trabalhem só porque você gosta mais de uma delas. Quase todo médium tem mais afinidade com alguma falange específica de trabalhadores, ou com um determinado guia espiritual. O que não pode acontecer é deixar a vaidade sobressair as questões da espiritualidade.

A entidade Guia Chefe de Cabeça é responsável pela nossa evolução espiritual, cuidando de nos ensinar, doutrinar e guiar dentro da espiritualidade, sempre que buscamos tais atributos. Sendo também o ordenador de toda a nossa trama de guias, pois as demais entidades – “de direita e de esquerda” – submetem-se à sua autoridade que é exercida de forma totalmente pacífica e serena, sem conflitos. Cabe esclarecer ainda que podem não ser necessariamente da mesma linhagem desses Orixás, ou seja: um filho de Xangô com Oxum pode ter como guia chefe de cabeça um caboclo de Oxóssi ou um Preto Velho de Ogum. Isso não interfere em nada.

Autoria desconhecida




Leia mais

13/09/2020

Amar e Ser Amado pelo Divino





Eu vou contar a historia
De minha avó, que é algo 
Que sempre me tocou muito.


Quando eu era pequena 
Minha avó era mãe de Santo
E todos sabiam que era filha de Oyá,
Porém eu sempre reparava
Que ela nunca tirava o fio
De contas douradas do pescoço,
Usava Idés e tudo mais,
Então um dia enquanto ela 
Se arrumava eu perguntei:


🌼— Vó, porque a senhora sempre usa fio de Oxum e idé dourado? Ela não é sua santa, então porque disso?


Ela, uma negra retinta
De baixa estatura
E de feições delicadas como 
As de uma boneca 
Mesmo ja sendo idosa 
Sacudiu os pulsos e as pulseiras douradas
Que usava tilintaram,
Sorriu para mim e se sentou
Do meu lado, ali contou a historia.


Era o ano de 1945
Quando minha bisavó, dona Cleuza,
Veio da Bahia para trabalhar 
Em uma fabrica em São Paulo.
Hoje a fabrica já é extinta
Mas na época todos conheciam
A grande tecelagem
Mariângela do bairro Brás,
E lá ela trabalhou muito.
Na mesmo epoca
Conheceu meu bisavô,
Seu Jarbas, ele era de Pernambuco
Mas estava em São Paulo
Para trabalhar na construção Civil.
Ele se casaram e
Em 1948 ela ficou gravida,
A fábrica deu-lhe uma licença
E ela foi ter o bebê.
Naquela época não havia SUS,
E minha bisavó acabou não tendo
Nenhum tratamento pré Natal,
Na época isso nem existia
E mesmo se existisse
Não estaria disponível a uma mulher
Preta e pobre. 
O jeito foi ir parir na 
Santa Casa de Misericórdia,
As freiras não eram racistas o suficiente 
Para negar atendimento 
A uma parturiente,
Então lá nasceu minha avó.
Nasceu quieta, flácida,
Não chorava nem se mexia
E nem sequer consegui mamar,
Ficava imóvel e de olhos fechados
Como se fosse morta.
Minha bisavó se desesperou 
E perguntou aos médicos 
O que a criança tinha
Mas eles não deram muita bola,
Fizeram alguns exames básicos e disseram
Que ela não sobreviveria.
Um bebe preto e filho de nordestinos
Não trazia aos doutores interesse.
Vovó ainda estava viva mas 
Eles já tinham dado a ela a
Sentença de morte. 
Minha bisavó, uma baiana muito arretada
Não aceitou ver a filha morrer 
Naquele hospital sujo,
Então pediu para ir embora com o bebê.
As Freiras disseram que não podia
Tinha a restrição medica de ficar 
Pelo menos mais um dia internada,
Mas minha vó fez pé firme,
Então elas disseram que "tanto fazia".
Foi assim que minha bisavó 
Saiu do hospital poucas horas depois do parto.
Como ela teve forças pra sair correndo 
Logo depois de parir?
Eu não sei, mas aquela mulher 
Era fantástica e fez isso.
Minha bisavó era do santo 
Na Bahia foi iniciada para Oxum,
Era uma Ekeji,
Então assim que saiu do hospital 
Disse a meu bisavô que precisava 
Levar o bebê para um terreiro.
Mas que terreiro?
Vocês hoje em dia jogam na internet 
E ficam sabendo onde estão as coisas
Mas naquela época nem celular existia,
E os terreiros era tão poucos na cidade 
De São Paulo
Que ela não conhecia nenhum.
Pegaram o ônibus para a Zona Norte 
Ele fazia sua parada final na perto 
Do Tucuruvi.
E ela veio rezando o caminho todo,
Embalava a filha nos braços, 
Um bebe semi morto.
Desceram no Tucuruvi 
E tomaram um carro de aluguel 
Pois moravam pro fim do Tremembé
La pra aqueles lados que eram 
Fazenda de japoneses.
No meio do caminho minha bisavó 
Fechou os olhos e com toda a fé 
Que tinha rezou.


"Minha mãe Oxum me ajude, salve me meu bebê, eu sei que a senhora pode, só a senhora pode... me ajude minha mãe, me de um sinal... eu não posso enterrar minha filha, eu preciso que ela viva..."


Meu bisavô nao era da religião
Mas ainda assim cutucou o ombro
Dela e apontou para a janela do carro 


👤— Cleuza olhe ali, aquilo não é gente de macumba? 


Ela olhou para fora 
E lá estava um pequeno grupo 
De pessoas vestindo roupas brancas,
Eles iam levando um balaio de pipocas,
Era um Sabajé.
Minha bisa gritou para o motorista parar
E desceu do carro correndo
Deixando meu bisavô para trás para 
Pagar o motorista.
Ela chegou esbaforida
Até aquelas pessoas e perguntou
Se eram de algum terreiro,
Elas a olharam torto, 
Tinha muito preconceito
Com candomblé na época
Então eram arredios em dar endereços,
Mas ela Mostrou o bebê que 
Trazia nos braços 
E depois mostrou as marcas de cura
Que tinha nos ombros
E contou que precisava da ajuda 
De mãe Oxum.
Aquelas Iyawos estavam passando ali
Por um acaso,
Havia uma comunidade de baianos
Do outro lado do bairro 
E elas so estavam pra aquele lado
Porque uma delas sentiu no coração 
De ir para la, para aquelas ruas de terra
Onde o povo as olhava feio
Como se elas fossem o próprio diabo.
Quando ouviram a história 
Que minha bisavó contou
Nem perguntaram muito mais,
Depois de ver a criança 
Entenderam que era tudo providencia 
Do Orixá.
Elas e meus bisavós saíram correndo
E dois quarteirões a frente
Entraram em uma vielinha,
Chegaram na porta do terreiro,
Uma casinha pequena sem nem reboco.
Quando chegaram chamaram
Pela mãe de Santo 
E logo uma mulher corpulenta
Com roupas de baiana
Apareceu na porta.
Minha bisavó rapidamente
Desatou a falar contando a historia,
Esperava receber da mãe de santo
Alguma palavra de auxílio
Ou pelo menos de conforto,
Porém imediatamente se calou
Quando a gritaria começou.
Vocês devem estar se perguntando
Que gritaria foi essa,
Mas o que acontece foi que
Todas as pessoas da casa incorporaram
Seus Orixás de uma só vez
E os Orixás gritaram seus "ilás",
Isso só acontece quando a 
Sacerdotisa lider d casa incorpora,
Os Orixás de seus filhos vem em respeito 
Ao Orixá dela, que é mais velho,
Então minha mãe ergueu a cabeça
E olhou para a mãe de Santo,
Ela estava ali com uma expressão 
Serena, os olhos fechados e 
Estendeu as mãos pedindo
Para segurar o bebê.
Nesse momento minha bisa 
Não conseguiu dizer
Nenhuma palavra compreensível,
Ao ver o fio de contas no pescoço 
Da mãe de santo ela soube 
Que Orixá era aquele,
A própria Oxum estava ali.
Minha bisavó foi tomada por
Uma emoção tão grande
Que apenas tentava falar 
Mas chorava demais para ser entendida.
Oxum deu um passo a frente 
E tomou os bebês nos braços,
Segurou com um e com o outro 
Abraçou a minha bisavó.
Coitada, estava tão abalada
Que apenas deixou Oxum a guiar
Para dentro da casa.
Uma outra mulher chegou apressada,
Era uma Ekeji, ela foi desvirando o povo
E depois foi ajudar Oxum.
A Orixá pediu para entrar 
No quarto dos assentamentos,
E quem é do santo sabe que esse 
Quarto é sagrado no terreiro,
Nao é aberto a qualquer um
Mas ainda assim 
Oxum mandou abrir o quarto 
E todo mundo Daquela casa
Entrou naquele pequeno cubículo,
Era pelo menos uma dúzia de pessoas e
Até meu bisavô que não fazia 
Idéia do que estava acontecendo 
Se enfiou lá.
Ali haviam prateleiras com 
Varios assentamentos 
Mas o maior era um de louça Branca,
O assentamento da própria Oxum.
Ela mexeu nas louças e tirou 
Uma tina que ficava sob elas,
Colocou no meio do quarto 
E então cochichou algo para a ekeji,
Logo a mulher voltou com uma moringa 
E encheu a tina de água.
Todas as pessoas observaram em silêncio,
Oxum se ajoelhou,
Desenrolou o bebe da manta
E o colocou dentro da água fria.
O bebê parecia morto,
Roxo e mole.
Oxum fez sinal para minha bisavó,
Levou uma mão a própria boca 
E minha bisa entendeu que ela dizia "cante".
Sim, quem é do santo sabe
Que o cantar é o mesmo que rezar.
Minha bisavó com voz embargada
Começou:


"Oro mi má, oro mi má ó, oro mi má ó abado o ieiê ô"


Sim eu sei que ela cantava errado,
O Yoruba estava torto, mas ela cantava 
Com toda a fé que tinha no peito.
O povo ali juntinho no quarto 
Começou a cantar junto
E logo como um coral eles
Entoavam esta e várias outras cantigas
De louvação a senhora das águas doces.
Oxum mantinha o bebé na água,
Com uma mão apoiava a cabecinha,
Com a outra ia molhando o corpinho
Com toda a delicadeza.
A cantoria continuou por algum tempo 
Até que foi interrompida por um som,
O choro do bebê.
Minha bisavó ficou tão emocionada
Que acabou tendo um desmaio,
Mas logo que se recobrou
Oxum entregou para ela a criança,
Um bebê firme, de olhos abertos 
E sedendo por leite.
Ela desabotoou a camisa 
E pôs o peito pra fora,
Na hora o bebê pegou e mamou.
Estava viva, a criança 
Estava viva e bem.
Oxum tirou um de seus colares 
Do pescoço e dando várias voltas
O colocou no pescocinho 
Do bebê, beijou aquela
Cabecinha frágil e então partiu.


Minha bisavó nomeou minha avó 
De "Conceição" para homenagear Oxum,
Ela na época achava que Oxum
Era o mesmo que Nossa Senhora da Conceição,
Sabe como é, coisas de gente antiga
Sem muita compreensão.
Mas uma coisa é certa, 
Oxum deu a vida a minha avó,
Ela nasceu realmente naquela 
Tina de água,
Nas mãos de Oxum.


Quando ficou adulta 
Vovó foi iniciada para Oyá Onira,
Era uma Iyansã belissima a dela,
Orixá que ela amava muito,
Mas sempre que perguntavam
De quem ela era filha ela dizia
"Sou de Oxum com Oyá"
Pois foi Oxum quem lhe deu
A graça de viver. 
Ela abriu casa e se tornou 
Iyalorixá, por toda a vida
Zelou pelo santo.
Em 2014 ela já era idosa
Quando foi diagnosticada com
Demência senil, que é quando 
O idoso começa a perder
A capacidade intelectual.
Por três anos lutamos atrás 
De uma cura
Mas essa condição é considerada
Algo natural, não é uma doença,
É simplesmente algo que pode acontecer.
No fim do ano de 2017
Os problemas mentais começaram 
A atingir o corpo em forma de síndromes,
Após tres AVC's e múltiplos 
Fatores recorrentes
Os médicos liberaram vovó 
Para passar seus últimos dias em casa.
Minha mãe não teve esse interesse
Em ser do santo
Mas eu sim, trilhei os caminhos de vovó 
E me tornei Iyalorixá, 
Aqui na mesma casa que foi dela,
Uma casinha pequena que alguns 
Até chamam de beco
Por ser humilde e por ainda
Ter alguns costumes referentes 
A crença de minha avó, dona Conceição.
Era Dezembro, época que eu toco 
A festa das Iyagbás,
E como sempre o pessoal do bairro veio,
E dessa vez vieram pessoas 
Que eu não conhecia, 
Um rapaz se destacava,
Um negro enorme, 
Lindo de olhos verdes.
No meio do Xirê ele recebeu seu Orixá
E para minha surpresa 
Aquele homenzarrão era
Filho de mãe Oxum.
Na hora que ele incorporou
Não se juntou aos outros Orixás na roda,
Não, ele simplesmente saiu do terreiro
Pela porta lateral.
Eu corri atrás, 
Pensei que Oxum estava procurando 
Um lugar para se trocar,
Me envergonho em dizer que até 
Suspeitei que o rapaz estava de ekê,
Mas não, Oxum simplesmente seguiu 
Para fora, atravessou o corredor 
Até chegar nos fundos 
Onde fica a minha casa
E ficou parada diante da porta 
Esperando que eu abrisse.
Eu estava achando estranho
E expliquei a Oxum que ali
Não era parte do terreiro,
Mas ela de modo impaciente 
Fez gestos para que eu abrisse logo
Aquela porta.
Assim eu fiz, abri e ela entrou,
Ali na sala de casa
Estava vovó sentada na cadeira de rodas
Vendo televisão com os olhos vidrados.
Sabe, vovó já não reconhecia a gente,
Era como se fosse uma casca vazia,
Mas quando Oxum se aproximou 
Ela ergueu a cabeça e sorriu, 
Com a voz fraquinha Disse "mãe..."
O rapaz era forte, com um único movimento 
Pegou minha avó no colo 
E caminhou de volta para o terreiro.
A Oxum dele dançou todo o rum 
Com vovó em seus braços,
A embalando como um bebê.
Foi uma alegria só,
Todo o povo a conhecia 
E lhe davam comprimentos,
Vovó estava tão bem 
Que até comeu o Ajeun conosco,
Oxum a sentou na cadeira 
De mãe de santo e ali vovó 
Riu e brincou,
Reconhecia cada pessoa de nossa
Comunidade como se nunca 
Houvesse ficado doente.
No fim da noite
Oxum levou vovó devolta para casa
E a colocou na cama,
Deu nela um abraço 
E depois partiu, então 
A Orixá deixou o corpo do rapaz.
Minha velha estava outra pessoa,
Estava lúcida e sorridente,
Conversou comigo como 
Nos tempos de outrora. 
A festa acabou, o povo se despediu
E eu e meus filhos colocamos 
O terreiro em ordem.
Passamos a madrugada na faxina,
Já estava amanhecendo quando
Eu voltei para casa
Para ver como estava vovó.
Ela estava com os olhos fechados
E uma expressão serena,
Havia falecido durante o sono.
Eu tenho muito orgulho 
De ser mãe de Santo como ela foi,
De reinar nessas paredes
E de saber que ali atrás 
No quarto dos assentamentos 
Tem até os dias de hoje
Dois Ibás gêmeos 
Um do lado do outro 
Montados da mesma maneira,
Do lado direto um de louça amarela 
E do esquerdo um de louça cor de rosa,
Os Orixás de minha avó.
É história de minha velha,
É a história de uma mulher 
Que amou e foi amada pelo divino.


Contos de Terreiro, dramatização: Felipe Caprini




Leia mais
Topo