junho 2020 - Tenda de Umbanda Luz e Caridade - Tulca

25/06/2020

A Mediunidade de um Criminoso

A Mediunidade de um Criminoso

Mais de um ano se passou da prisão de um homem, médium conhecido como de cura, acusado de praticar vários crimes, como abusos sexuais, falsidade ideológica, corrupção de testemunha, coação, posse ilegal de armas, condenado a 60 anos de prisão, com mais 10 processos em andamento.*

Este texto surge de uma pergunta que não quer calar: como um médium desvirtuoso e criminoso pode favorecer a cura de milhares de pessoas, segundo depoimentos dos que alcançaram a cura ou dos que conhecem alguém próximo que foi favorecido pela intervenção deste médium?

Na população mundial não falta sugestões:

Uns simplesmente não acreditam em cura. 

Outros acreditam, desde que separem o médium do homem criminoso, como se um pudesse sobreviver sem o outro em um mesmo contexto de serviço mediúnico. 

A medicina explica, sem pesquisa de campo comprovada, que os que alcançaram a cura não tinham doença física de fato e sim doença psicológica, que é mais fácil de apresentar resposta favorável por sugestão e indução.

Vamos primeiro entender o que é mediunidade:

Mediunidade é a capacidade de ser intermediário entre dois planos, o material e o espiritual, é uma faculdade inerente ao ser humano, tão natural quanto os seus cinco sentidos conhecidos, sendo que em algumas pessoas apresenta-se de forma mais ostensiva do que em outras, porém todos são médiuns em diferentes graus e tipos de mediunidade, independente da religião que professa ou conduta moral.

Diante do conceito acima, se todos são médiuns, entende-se que existem médiuns moralmente decaídos, mau caráter, charlatões, bandidos, etc. Como existem médiuns de conduta ilibada, virtuosos e confiáveis. As pessoas são diferentes, os médiuns são diferentes, todos carregam a mesma essência como pessoa e como médium, por isto não podemos, como pensam alguns, separar o médium do homem criminoso, para justificar as suas curas.

Então, ainda insistimos na pergunta que não quer calar: como um médium com conduta criminosa pode efetuar curas milagrosas?

Já sabemos o que é mediunidade, agora vamos refletir quem são os espíritos  que se utilizam desta mediunidade:

Os espíritos, quando desencarnam, carregam a mesma bagagem moral de quando encarnados. Existem os espíritos bons, da luz e também os maus, das trevas. Eles vão se ligar aos médiuns de acordo com a sua semelhança, questão de sintonia. É impossível para um espírito da luz sintonizar-se com um médium com condutas trevosas, da mesma forma, é impossível a um espírito trevoso sintonizar-se com um médium do bem.

Diante do exposto acima, concluímos que os espíritos que assistem o médium criminoso são espíritos do mal. Como assim??? Um espírito do mal pode fazer um bem, uma cura? Pode. 

No mundo astral existem verdadeiras organizações trevosas, composta por espíritos comprometidos em dominar o mundo, são espíritos altamente inteligentes, dentre eles também existem os que na terra foram cientistas, médicos, filósofos e toda uma gama de atribuições para desenvolver um plano de domínio e de poder sobre a maioria. A organização criminosa do astral se sintoniza com a organização criminosa terrena através dos seus médiuns.

Os trevosos para iludir os menos atentos, se passam por espíritos bem conceituados e da luz, usam o seu nome e operam "milagres" com os seus conhecimentos de medicina. A cura aparente existe, enfatizo "aparente" porque não é uma cura real e sim momentânea, somente para iludir e angariar adeptos.

A cura verdadeira proporcionada por intercessão dos espíritos da luz e que não necessita do toque no corpo físico, muito menos que os médiuns fiquem a sós com o paciente, são curas que foram permitidas por Deus, diante do merecimento de cada um, que somente a Sua Justiça pode avaliar quem é merecedor. Portanto os espíritos da luz seguem uma Lei Maior, a Lei da Ação e Reação ou de Causa e Efeito, logo não é qualquer um que tem o merecimento da cura, muito menos multidões como vemos entre os que fanatizam o médium criminoso. Os espíritos da luz não compactuam com o sensacionalismo, fanatismo e com tudo que favoreça a ascensão do ego de qualquer médium. 

Já respondemos como um médium criminoso pode efetuar curas. Agora vamos refletir porque os espíritos de luz permitem. Eles permitem a intervenção de trevosos na Terra de diversas formas, não apenas no caso específico de curas espirituais, para que as pessoas aprendam com suas próprias experiências a discernir o bem do mal, pois muitos ensinamentos o ser humano só compreende com o sofrimento. Não estamos neste planeta a passeio, algo viemos aprender ou resgatar para evoluir.

Nossa sugestão para não cair nos planos de um médium trevoso ou mistificador: 

Sempre oriento aos meus filhos de santo que desconfiem de todo exagero. Tudo que ultrapassa a barreira da simplicidade, do anonimato e da caridade desinteressada é passível de alerta. Os espíritos da luz não precisam provar nada para ninguém, através de curas e intervenções sensacionalistas. Eles não têm a necessidade de provar a sua existência, pois sabem que cada um tem a sua hora de atingir a maturidade espiritual. Os espíritos da luz trabalham muitas vezes no anonimato, pois não querem se destacar por carregarem um nome louvável, abominam completamente o orgulho, a vaidade, a luxúria, o egocentrismo e qualquer tipo de sensacionalismo, abominam qualquer mal ao próximo. E como eles, são seus médiuns ou pelo menos são médiuns que tentam ser melhores a cada dia, pois não existe perfeição na Terra.

Que este texto, elaborado no dia de Xangô, Orixá da Justiça, possa contribuir para um melhor entendimento sobre os médiuns e suas práticas mediúnicas. Ele está em defesa das religiões, que muitas vezes são confundidas com as práticas indevidas de determinados médiuns. A religião existe não para resolver os problemas dos seus adeptos, mas para lhes dar sustentação e forças para superá-los da melhor forma possível e no momento certo, designado por Deus.

Ednay Melo - Sacerdotisa da Tulca
Recife, 24 de junho de 2020



*Corrigindo: tínhamos publicado 19 anos de prisão, mas são 60 anos (19 anos refere-se a apenas uma condenação), pedimos desculpas.





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19/06/2020

Médium Desmotivado com o Terreiro

Médium Desmotivado com o Terreiro

Acredito que quando nós decidimos entrar para corrente de um terreiro somos tomados por grande emoção, tudo é incrível, estamos entusiasmados em ajudar e participar daquilo, queremos praticar a caridade e devolver aos consulentes tudo aquilo que recebemos enquanto nós também estávamos do lado de fora do congá. Acontece que com o tempo aquelas “humanices” começam a aparecer e nós começamos a confundir nossa vaidade e o nosso egoísmo com “coisas erradas” que vemos dentro do terreiro.

Há pouco tempo atrás, em um dia desses que fui tomada pela minha vaidade e egoísmo, comecei a questionar algumas coisas que eu via dentro da minha própria casa. Eu me sentia desajustada e lendo um pouco mais sobre o assunto, encontrei uma passagem no livro “Corpo Fechado”. Ali o Pai João explicava que esse processo é bastante comum, em poucas palavras o Preto Velho dizia que o médium começa a se sentir incomodado, excluído e se afasta das atividades comuns do terreiro, em seguida ele se afasta da casa culpando todos por seu desconforto. Quando perguntado ao Pai velho de quem era a culpa disso tudo, ele respondia: do próprio médium.

Para me ajudar a entender um pouco mais sobre esse tipo de sentimento em um dia que eu estava totalmente confusa sobre o caminho a ser seguido, o Caboclo Ogum Rompe Mato disse:

- Tu lembras que a umbanda é a manifestação do espírito para a caridade, não é filha? Pois quando falamos da caridade, não estamos nos referindo apenas a caridade material, onde você doa aquilo que já tem excesso para aqueles que não tem nada, esse tipo de caridade é muito fácil, é bastante cômoda. Uma das manifestações do espírito para a caridade é a prática da caridade moral. A caridade moral é entender que cada pessoa tem um tempo nessa terra, que o tempo corre diferente para cada indivíduo. Ter caridade moral é tentar exercitar o amor ao próximo, mesmo que o próximo não partilhe dos mesmos ideais que você. Ter caridade moral é saber que cada médium dentro do terreiro é um espírito em desenvolvimento que muitas vezes está ali para errar, mas merece o perdão, pois o erro faz parte do aprendizado. Ter caridade moral é ter empatia pelo dirigente do seu solo sagrado, entendendo que muitas vezes aquela posição traz a necessidade de ter certas atitudes, e como seres humanos que são, os dirigentes também são espíritos em desenvolvimento, estão passíveis de erro e merecem o seu perdão.

O Caboclo deu uma volta pelo congá, olhou para os médiuns da corrente, para as pessoas que buscavam ajuda na casa durante aquela noite e continuou:

- Nesse tempo todo, quantas pessoas vocês viram sair daqui? Muitas! As pessoas vêm para a umbanda seguindo o seu próprio coração, mas em alguns casos quando se afastam é porque decidiram seguir a cabeça, e pior, muitas vezes não é nem a cabeça delas, mas a cabeça dos outros. Quando o médium começa a se sentir deslocado, achar erro em tudo que acontece naquela casa que lhe acolheu, lhe falta caridade moral! Ele acredita que ao vestir o branco e vir trabalhar já está fazendo um grande favor para o dirigente e os irmãos da corrente, grande engano, ele está fazendo um favor para ele mesmo. Muitas vezes ele acha que não precisa participar dos trabalhos, pois já fez muito pela casa, mas todos os dias na casa tem irmãos desesperados procurando um acalanto e uma luz nos caminhos, todos os dias e isso independe da vontade de vocês de querer trabalhar ou não! Enquanto por vezes vocês se sentem desmotivados e sem vontade de vir praticar a caridade, muitas pessoas que estão na assistência contaram os dias para que o trabalho acontecesse, contaram os dias para poder vir até o terreiro buscar auxílio para as dores da alma. Quando vocês chegaram aqui, vocês não sabiam nem andar direito, então com muito amor e caridade moral, Ogum Sete Ondas levantou vocês, ensinou como caminhar e ainda colocou luz no caminho de vocês e agora por gratidão, cabe a vocês a ajudar o sr. Sete Ondas a colocar a luz no caminho das outras pessoas.

No mesmo dia, naquelas "coincidências" que a Umbanda nos proporciona, o amado Pai Miguel de Angola arriou no terreiro e chamou os filhos para uma conversa. Entre tragos no cigarro de palha e goles de café, com uma voz suave e um olhar amoroso ele disse:

- Sabe, filhos, é preciso vigiar muito o pensamento de vocês dentro do terreiro. Quando vocês vem pra essa casa trabalhar, nós aqui na espiritualidade contamos com a força e a união de vocês, é por isso que o grupo é chamado de corrente. Cada elo da corrente é necessário para manter a força e a harmonia dos trabalhos. Quando um elo se quebra, ou quando um filho tenta repelir essa união por conta de pensamentos obscuros, nossa harmonia é prejudicada, a prática da caridade é prejudicada.

Então eu refleti sobre tudo que o Sr. Rompe Mato e o Pai Miguel disseram, pedi perdão para Oxalá pela minha conduta que muitas vezes foi desapropriada, mas que de certa forma também fazia parte do meu processo de aprendizado. E nessa reflexão eu concluí que ser umbandista é muito mais do que praticar uma religião e estar em contato com minha raiz, ser umbandista foi uma forma que Pai Oxalá, misericordioso que é, encontrou para dar ao meu espírito a oportunidade de aprender, evoluir e cumprir meu carma.

“Por entre mares, por entre matas e terras eu entendi o que meu Pai quis dizer”

Autoria desconhecida


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